O escritor potiguar e o “homem cordial”

Colunistas

“A função do escritor? Ser testemunha do seu tempo e da sua sociedade.
Escrever por aqueles que não podem escrever.
Falar por aqueles que muitas vezes esperam ouvir da nossa boca
a palavra que gostariam de dizer.”
Lygia Fagundes Telles

Semana passada, tivemos uma notícia não muito agradável no Estado. Jornais e Tevês divulgaram que a rede estadual de ensino do Rio Grande do Norte teve o segundo pior desempenho no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) 2015, do país. Resultado divulgado, nesta quinta-feira (8) pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Má noticia à parte, resolvemos fazer uma reflexão a partir desse fato, indagando sobre e a relação que as escolas do Estado têm com a nossa cultura literária. Sabemos que os livros estão intimamente ligados à questão da educação, como também sabemos que uma das causas do índice baixíssimo no IDEB é a falta de leitura de muitos alunos e, pasmem, também de muitos professores.

Outra questão importante e atual, aliás, relacionada com a anterior: a responsabilidade social do escritor. Importa saber que nós mesmos podemos fazer mudanças na sociedade, sobretudo quando trabalhamos com arte. Essa é uma questão para refletirmos com bastante seriedade. Mas, – atenção! – antes de votar nos que pretendem mudar esse quadro é bom separar a emoção da razão. Infelizmente, aqui no Estado, como em todo o país, a amizade, ainda prevalece na hora de escolher quem vai nos representar.

Na obra “Raízes do Brasil”, do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), há um capitulo muito interessante, que trata da cordialidade do povo brasileiro, porém, cordialidade no sentido que remete ao coração (cor, cordis), ou seja, dar-se o jeitinho brasileiro de fazer as coisas, baseado na camaradagem, na amizade. Essa cordialidade brasileira, que a principio seria algo positivo, torna-se negativa, pois sai do âmbito privado para o público. Sempre queremos beneficiar os mais próximos, “os de casa” mesmo que isso prejudique a coletividade.

Segundo Sérgio Buarque de Holanda tal proceder vicioso é uma herança portuguesa, misturada com um pouco do legado de outras culturas, negras e indígenas. O tipo cordial é individualista, avesso à hierarquia, arredio à disciplina, desobediente a regras sociais e afeito ao paternalismo e ao compadrio. Evidentemente, não se trata de um perfil adequado à vida civilizada numa sociedade democrática.

Devemos entender que a política e o estado não podem nem devem ser uma ampliação do círculo familiar ou das relações de amizade.

Todos nós, escritores e amigos dos livros precisamos compreender nosso papel como cidadãos comprometidos em tornar uma sociedade melhor. Lembremo-nos de que, assim como todas as artes, a literatura está vinculada à sociedade em que se origina. Não há escritor completamente indiferente à realidade, pois, de alguma forma, todos participam dos problemas da sociedade, apesar das diferenças de interesses e de classes sociais.

Partindo das suas experiências pessoais, o escritor recria a realidade, dando origem a uma realidade ficcional, e através dela consegue transmitir suas ideias ao mundo real. Desta maneira entendemos a literatura como um objeto vivo, uma relação dinâmica do escritor com o meio.

A função da literatura, segundo Antonio Candido, está ligada à complexidade da sua natureza, e ela é uma construção de objetos autônomos com estrutura e significado, e é também uma forma de expressão e de conhecimento. Para Candido a literatura tem uma função “formadora”, que, lhe confere um caráter educativo, atuando na formação do leitor.

Para o estudioso existem na literatura níveis de conhecimento planejados pelo escritor e conscientemente assimilados pelo leitor. E são nesses níveis que o autor injeta suas intenções sejam ideológicas, de crença, ou revolta. Neste caso , segundo Candido, a literatura satisfaz em outro nível, a necessidade de conhecer os sentimentos e a sociedade, ajudando o leitor a tomar posição em face deles.

O ponto de vista do artista, mesmo implícito, defendido em sua obra, contribui para novos olhares sobre a realidade, e com isso, propaga novas ideologias, consequentemente o leitor de algum modo terá uma nova postura. Dessa forma, acreditamos, atuam duas funções da literatura, a função cognitiva, ou seja, de passar conhecimento, e a função político-social, que é a que interfere no senso crítico do leitor, formando uma opinião.

Ferreira Gullar, no início dos anos 60, já havia mencionado a importância da responsabilidade social do poeta. Gullar criticou o caráter puramente estético da arte, defendendo a arte engajada como instrumento de conscientização numa visão construtiva da sociedade.

Nesta mesma linha de pensamento, o escritor José Guilherme Merquior apresentou tese em que defendeu a arte, vista de maneira geral, como forma de conhecimento da realidade, que deve refletir a condição nacional, ou seja o artista com seu trabalho, deve influenciar direta ou indiretamente as pessoas.

Ainda segundo Merquior, a ideologia do artista está, na maioria das vezes, em discordância com a realidade que é apresentada e cabe ao artista a responsabilidade social pelo simples fato de fazer arte. Portanto ele deve colaborar na formação de uma sociedade, de modo cada vez mais crítico.

Devemos compreender a arte, segundo a linha de pensamento de Merquior, como tendo uma função cognitiva, ou seja, aquela que gera aquisição de conhecimento. Ainda com base nas ideias de Merquior, acreditamos que é exatamente a condição cognitiva da arte que pode conferir ao artista condições para tratar de assuntos sérios, importantes, tornando-se assim um instrumento de transformação social.

Torna-se evidente que o artista engajado usa seu talento a partir de diferentes linguagens e meios, para transmitir seus pensamentos, sua atitude para protestar ou apresentar denúncia contra algo que considera errado.
Por fim, poderíamos dizer que a arte engajada é aquela que perfila temas sociais e políticos, que possui uma ideologia por trás dela. Contrapõe-se à arte pela arte.

No dizer de Antonio Candido, a literatura é um instrumento poderoso de mobilização social. O estudioso louva as produções literárias nas quais o autor deseja passar uma posição em face dos problemas. Mas ele também alerta para o perigo de acharmos que a literatura só se realiza quando tem essa função. Idêntico o pensamento de Merquior quando diz que a arte pode e deve ser participativa, mas não pode de maneira alguma se rebaixar a uma mera indicação de tarefas, ou seja, ser panfletária, partidária.

Candido cita Castro Alves como modelo de literatura de engajamento. O poeta dos escravos, como ficou conhecido, soube como poucos conciliar as ideias de reforma social com procedimentos específicos da poesia, sem permitir que a sua arte fosse um mero panfleto politico. Poderíamos citar outros exemplos, como “Sentimento do Mundo” e “A Rosa do Povo” de Carlos Drummond de Andrade, com uma forte preocupação social. E vários outros autores: Lima Barreto, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Ferreira Gullar, Murilo Mendes… que usaram sua arte para fazer denúncias de natureza social.

O roqueiro Raul Seixas escreveu, certa vez, uma canção intitulada “Eu Sou Egoísta”, onde proclama: “Minha espada é a guitarra na mão”… Meu amigo escritor, leitor, não deixe de usar a espada que você tem, sobretudo num momento tão importante como o que vivemos. Faça a diferença usando a razão e não a emoção.

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