O humor carnavalesco de um manual mal-comportado

Cellina Muniz
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Vamos caminhando para o final do mês de setembro, o mês da primavera e dos ventos de Iansã e pensamos em tudo o que acontece de funesto neste ano de 2017 (como as “reformas” temerosas na política nacional, como a devastação dos passeios de Irma, como a crueldade gratuita sobre Dandara ou Thiago, etc. e tal). Uma das soluções diante de tanta desolação, me parece, ainda é rir. E vamos rindo, seja um riso alienado ou um riso engajado. Rimos com o Porta dos Fundos, com o Sensacionalista, com aquele meme no Facebook ou com aquela piada no boteco.

Penso que outro consolo possível para a alma é se distrair imaginando (pelo menos é o que acontece no meu mundo delirante) respostas para a seguinte indagação: E antes, muito antes, cem anos atrás, por exemplo? O que em 1917 solucionava as dores da alma com esse remédio (nossa melhor condição humana) chamado riso?

Comento um caso de humor de 100 anos atrás, então: a escrita do “Manual de Boas Maneiras para Meninas”, em Paris, publicado postumamente sob o pseudônimo de Pierre Louÿs em 1926.

Não sei se tod@s lembram a polêmica que foi a reedição em 2006, pela Cervejaria Devassa, do livro que parodiava manuais de boas maneiras para meninas da Belle Époque pulicado em 1926. Atualizo tal polêmica com uma das notícias (disponível em http://www.administradores.com.br/noticias/marketing/devassa-e-acusada-de-promover-estupro-por-material-publicado-em-2006/86394/):

“Se um vagabundo a encontrar num local deserto e a agarrar, deixe que ele a f*** de uma vez. É o meio mais seguro de não ser estuprada”. Essa frase, que parece ter saído de um comentário estúpido nas redes sociais, na verdade pertence ao escritor francês Pierre Louÿs. Publicada em 1926, está presente no livro ‘Manual de Boas Maneiras para Meninas’, que consiste em uma sátira dos livros de etiqueta do final do século XIX e foi reeditado em 2006 pela cervejaria Devassa, junto a outras obras do segmento. 0005

Hoje, a marca está sendo criticada nas redes sociais por divulgar o material. Ignorando o contexto original da obra, os internautas têm usado o trecho de Pierre Louÿs para acusar a empresa de promover o abuso sexual, em meio a todas as discussões geradas pela última pesquisa do Ipea, onde 65% dos entrevistados concordaram que mulheres de roupa curta merecem ser estupradas.

A discussão sobre o “politicamente correto” vai longe e, moralismos à parte, tod@s sabemos que por trás de muitas piadas há mais ofensa e agressão do que humor. Mas também é de se indagar: Como tentar ver o humor não pelos olhos do hoje, já embaçado de algum anacronismo?

Eu, de minha parte, prefiro sempre a reedição de um livro a vê-lo queimado. O silenciamento, como mostrou Foucault n´“A ordem do discurso”, é o principal mecanismo de exclusão das sociedades disciplinares, que fabricam corpos dóceis e negam as dissonâncias. Não entendo, pois, por que o livrinho do poeta e romancista francês Pierre-Félix Louis precise ser lido literalmente, cem anos depois de sua escrita, como um tratado de conduta para as mulheres de hoje, e não como uma atitude escrachada, a mesma, por exemplo, que nomeia a “Marcha das Vadias”.

Abro, então, o livro numa página a esmo e dou de cara com a seguinte recomendação, na seção “À Mesa”:

“Se encontrar um cabelo suspeito em sua sopa, não diga: Oba, um pentelho do cu!”

Obviamente, o livro me ganha de nocaute. Não tenho como não amar: edição de bolso, da “Azougue Editorial”, com introdução de Bernardo Esteves, em papel reciclado e com pérolas totalmente carnavalescas, como por exemplo esta, que “ensina” como se comportar na rua:

“Não desenhe caralhos nas paredes, mesmo se tiver um real talento para o desenho”.

Bakhtin, na sua interpretação fenomenal sobre a obra de François Rabelais, mostrou como a humanidade foi desabonando uma cosmovisão carnavalesca de mundo e vida para o ideal clássico de Belo e Bom ao final da Idade Média. As lendas de gigantes e anões, em seus extremos de excesso e falta, são só algumas das figuras que ilustram esse mundo contrário e oposto a tudo o que é sério e sisudo, pretensamente perfeito e acabado, bem típico da solenidade que Estado e Igreja instituíram. Mas eu não vou falar de Bakhtin – os livros estão aí! Interessa-me mais é ver como essa cosmovisão carnavalesca se manifesta em algumas leituras de humor, como por exemplo esse Manual.

Pensemos na chamada Belle Époque. A bela época em que se acreditava em entidades magnânimas como Ciência, Pátria e Progresso. A Educação assumia aquele caráter de civilização sobre a qual Norbert Elias um dia falou (os livros estão aí…). A mulher, as mulheres, esses animais a serem domesticados, feras que inutilmente pretendem domar, foram (e ainda são, claro) alvo de inúmeros dispositivos de controle, como o Jornal das Moças ou a Escola Doméstica, por exemplo. Foi na contramão desses dispositivos, contra a visão bem-comportada das cartilhas de conduta que o livrinho de Pierre Louÿs foi escrito. A paródia, a ênfase no grotesco, o vocabulário de “baixo” nível, a celebração ao corpo, ao baixo ventre e às suas excrescências são alguns dos elementos que o texto traz à tona, revitalizando os mesmos elementos que as fábulas de Gargântua e Pantagruel utilizam para representar o mundo não dicotomicamente, mas sim marcado pela circularidade contínua e pela contradição constitutiva.

Encerro esse ligeiro comentário com um exemplo que me parece perfeito para ilustrar como o texto de Louÿs, revolucionariamente, colocou-se contra toda essa hipocrisia advinda com a modernidade e seus padrões de “certo” ou de (supostamente) edificante. O exemplo me parece extremamente atual para se pensar, por exemplo, em atitudes tiranas como o episódio da censura na exposição do QueerMuseu:

“No museu: não suba no pedestal das estátuas antigas para se servir de seus membros viris. Não é permitido tocar nas obras de arte, nem com a mão nem com o rabo”.

Se é engraçado ou não, cabe a cada um decidir, e que possamos lê-lo para tal decisão (evitando a crítica oca que diz “não li e não gostei”). Mas o humor que se manifesta no Manual de Pierre Louÿs me mostra que seu público-alvo não é apenas composto por meninas, mas sim por tod@s que se permitirem a ver a vida com outros olhos que não silenciem as contradições e diversidades deste nosso mundo.

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Cellina Muniz

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