O mergulho de “Aquarius” nas novas, velhas mazelas brasileiras

Tácito Costa
AudiovisualDestaque

“Não deixe de ver AQUARIUS!!!!! Notável inteligência do roteiro que entrelaça com suavidade uma multiplicidade de temas. Esse entrelaçamento torna a personagem de Sonia Braga multifacetada e complexa – e envolvente.” Jean-Claude Bernardet

Com “Aquarius”, o diretor Kleber Mendonça Filho segue desvelando as mudanças estruturais porque passa a sociedade recifense. Trabalho iniciado em seu longa de estréia, “O Som ao Redor”.

Mudanças essa que podem, com ressalvas e guardadas as proporções, serem estendidas para grande parte do país, sobretudo para o Nordeste, onde a herança coronelista, machista e patriarcal encontrou terreno fértil para se desenvolver e continua forte.

São filmes que remetem, de alguma forma, à construção do que conhecemos hoje como Brasil, naquilo que ele tem de pior, como o autoritarismo e a violência e a imposição de uma modernização conservadora, que despreza a memória e a cultura, privilegiando o pior que vem de fora.

Em “O Som ao Redor”, vingança, medo, milícia, violência. Em “Aquarius”, a grana (“que ergue e destrói coisas belas”) e o novo coronelismo, agora com MBA em “business” nos Estados Unidos. Se no princípio, nobres e ricos iam para Portugal e Inglaterra, agora voltam-se para Miami, a meca, ou melhor jeca, dos novos ricos brasileiros.

Não é mera coincidência que os dois filmes de Mendonça Filho tenham condomínios como forte elemento catalisador de tensões. Ecos da resistência no cais de Estelita estão presentes (aqui). A cena inicial de “O Som ao Redor” é emblemática, com a criança brincando dentro daquele espaço cercado por muros altos e com cerca elétrica. Em “Aquarius”, a luta que Clara (Sônia Braga) trava contra a demolição do prédio onde mora.

Trata-se de outro grande filme do diretor pernambucano. Não vou me deter na exaltação da trilha sonora, na brilhante interpretação de Sônia Braga, ou na vigorosa reconstituição de época (década de 1980), aspectos já por demais considerados por críticos e espectadores atentos e sensíveis. Gostei muito também da atriz Bárbara Cólen, que faz Clara quando jovem.

A mim tocou-me demais a reconstituição e a trilha. De alguma maneira fazem parte da minha história. O Opala com toca-fita Roadstar, a cara de uma época. Altemar Dutra, Reginaldo Rossi, Bethânia, Roberto Carlos. Taiguara eu só vim conhecer bem depois. A música escolhida, “Hoje” (“Hoje, trago em meu corpo as marcas do passado…”) casa totalmente com o percurso existencial de Clara.

Não sei se porque andei lendo recentemente sobre a edição crítica de “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque, em comemoração aos 50 anos da publicação do livro, mas tem uma cena em “Aquarius” que me pareceu capital para o entendimento mais geral do filme e talvez tenha me empurrado para essa leitura com viés sociológico (José Geraldo Couto também faz leitura bem interessante sobre “O Som ao Redor”, que me remeteu a “Aquarius” – aqui ).

É quando Clara se encontra com um jornalista das antigas, seu amigo, e na conversa ele fala que a jornalista que a entrevistou é sua sobrinha (trabalha no jornal dele), que o jovem diretor da construtora é casado com alguém da família dele. Enfim, deixando claro as relações “cordiais” (o compadrio, a mistura de público com privado, a falsa civilidade) que Buarque aponta como causas do atraso do Brasil.

A imposição modernizante, citada no início, não ocorre apenas na tentativa de se construir um novo edifício no lugar do antigo. Mas também em níveis simbólicos. Não é apenas o velho prédio que precisa ser varrido do mapa. Clara e o que ela representa também.

No entanto, ela resiste. E com isso nos dá uma lição atualíssima. Não podemos aceitar passivamente a destruição da memória, da cultura, da tolerância e civilidade e o primado do cinismo e do capital sobre a esperança e a utopia.

Eu usei a fala do conceituado crítico Jean-Claude Bernardet na abertura porque ela sintetiza o filme, que de fato entrelaça questões atuais, a partir de dois eixos principais, a trajetória de Clara, sua superação do câncer, e o olhar sobre a nova elite, representada pelos diretores da construtora.

Impossível falar em “Aquarius” sem fazer referência à denúncia do golpe pelo elenco em Cannes. Se por um lado isso e a fala de Reinaldo Azevedo, pregando boicote, ajudaram a divulgar o filme, por outro pode ter afastado espectadores que imaginam que o filme em si remete de alguma forma à traumática conjuntura política atual. Não acho. O filme vai muito, mas muito além mesmo da polarização e guerra política-ideológica atuais. Por isso, deve ser visto e avaliado para além dessas polêmicas pontuais.

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Tácito Costa

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