O nome da minha cidade é Pau dos Ferros

Manoel Cavalcante
Destaque
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Apenas três cidades potiguares têm nome de mulher. Entre as outras 164, homenagens a coronéis, latifundiários, médicos, autoridades da Justiça, santo católico, famílias poderosas. “Contudo, respiramos quando vemos nomes em tupi-guarani como Assu, Itaú, Canguaretama, Ipanguaçu, Parnamirim e outros mais”.

-Pau dos Ferros? -Sim, Pau dos Ferros.

 

Tenho bussoluta certeza, e bussoluta vem de bússola, que essa pergunta em sinal de estranheza ante a revelação de nossa terra natal é um episódio frequente quando um pauferrense sai para outras regiões ou fora do Brasil.

 

No entanto, quando explicamos a origem do nome, todos fazem reverência à originalidade. É como diz um poeta amigo meu:

 

-Pode até existir um mais bonito, mas igual num tem não. 

 

Na contramão da identidade de nossa cidade ao menos no nome, nosso Estado é um seio farto e fértil de autoafirmação pessoal, personificação das ações e disseminação das oligarquias, através da invasão de identidade.

 

Temos 167 municípios e destes, cerca de 25 %, um quarto, tem nomes de pessoas, direta ou indiretamente, 34 têm nome próprio como Rafael Fernandes, Marcelino Vieira ou sobrenome próprio como Martins.

 

Outros trazem a alcunha hierárquica como ousadia: Tenente Laurentino Cruz, Senador Elói de Souza e mais seis trazem o nome indiretamente, o que é pior, pois dá a ideia de posse, que aquela cidade, aquela história, é de uma única pessoa ou de uma única família: Timbaúba dos Batistas, Olho Dágua do Borges, Santana do Matos, etc.

 

Homenagens são justas e sabemos da importância de grandes líderes. Todavia, por mais perspicaz que seja a pessoa, o ser humano, a influência daquela família, não é de bom grado, colocá-los no topo do ranking, como os maiorais – e olhe que muitas vezes nem são. Reverenciá-los de outra forma seria mais coerente.

pau-dos-ferros_7Acompanhemos os nomes abaixo

  1. João Câmara
  2. Nísia Floresta
  3. Afonso Bezerra
  4. Almino Afonso
  5. Frutuoso Gomes
  6. Pedro Velho
  7. Ielmo Marinho
  8. Governador Dix-Sept Rosado
  9. Tenente Ananias
  10. Luís Gomes
  11. Antônio Martins
  12. Pedro Avelino
  13. Doutor Severiano
  14. José da Penha
  15. Felipe Guerra
  16. Tenente Laurentino Cruz
  17. Coronel Ezequiel
  18. Bento Fernandes
  19. Martins
  20. Coronel João Pessoa
  21. Rodolfo Fernandes
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    E ainda: Carnaúba dos Dantas, Timbaúba dos Batistas, Olho D’água do Borges, Alto do Rodrigues, Santana do Matos, Serrinha dos Pintos.

    Messias Targino

  23. Senador Georgino Avelino
  24. Lucrécia
  25. Ruy Barbosa
  26. Rafael Godeiro
  27. Fernando Pedrosa
  28. Francisco Dantas
  29. João Dias
  30. Rafael Fernandes
  31. Senador Eloi de Souza
  32. Severiano Melo
  33. Major Sales
  34. Alexandria

Algumas cidades mantiveram originalidade

Mas nem tudo está perdido. Três cidades do Rio Grande do Norte deixaram as alcunhas pessoais e hoje possuem seus novos-antigos nomes com auteti(cidade) e originalidade. Ei-las:

Boa Saúde deixou de ser Januário Cicco (médico), que agora é apenas uma maternidade, por sinal muito conceituada; Serra Caiada deixou de ser Presidente Juscelino que, por sua vez, num sabe nem sabia nem onde ficava Serra Caiada.

A população escolheu num plebiscito em 2012 com 98,53% dos votos, a favor da troca, ou seja, o nobre Juscelino Kubitschek não recebeu um real de cabimento dos serracaiadenses;

Campo Grande deixou de ser Augusto Severo após uma manifestação de menosprezo de um familiar do referido patrono, explicitada numa solenidade, dizendo que era uma cidade minoritária, muito longe da capital e outras asneiras.

Um pesquisador da cidade estava presente e fez um abaixo assinado na cidade, que voltou a ser Campo Grande em 1991.

amarelo_prakash-ghaiSai poesia, entra personalismo

Certa feita, um amigo me confidenciou ser bisneto de Coronel João Pessoa, e mesmo assim, preferia que o nome da cidade fosse Baixio de Nazaré, haja vista aquela pequenita cidade estar localizada em um grande baixio. Belo nome, né não?!

Por falar em belo, Caiçara do Rio do Vento, cidade perto de nossa capital, já ganhou um concurso, certa vez, como um dos nomes de cidades mais belos do país. E com justiça.

Nossa própria Pau dos Ferros, ainda teve como sugestão Vila Cristina, mas não vingou. A cidade de Encanto, antes de emancipada, era Joaquim Correia, mecenas da educação e grande líder político, hoje nome do centro cultural em nossa cidade, que inclusive foi construído por ele. Mais justo, né não?!

Não obstante a isso, desperdiçamos vários nomes justos, intrínsecos de cada região, de cada lugar, em detrimento de nomes pessoais. Que pena. Felipe Guerra, cidade de belezas naturais, deixou de ser Pedra da Abelha. Algum outro lugar teria uma pedra em formato de uma abelha?

Antônio Martins antes era Boa Esperança, bonito e singelo, concorda? Alexandria era chamada de Barriguda, em homenagem a Serra da Barriguda, cartão postal do município. Nome que além de exaltar a própria cidade, deixaria todo mundo de bucho cheio, nera? Olha a Barriguda aí:

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Alexandria (RN) já foi chamada de Barriguda, em alusão à serra

Rafael Godeiro atendia por Várzea da Caatinga. Lindo demais. Rafael Fernandes por Varzinha, Frutuoso Gomes por Mombaça. Rodolfo Fernandes já foi Serrote dos Gatos.

Tenente Ananias já foi Água Marinha. Major Sales já foi Cavas. Doutor Severiano, Mundo Novo. Francisco Dantas era Riacho Tesoura, quer nome mais afiado? São infindos os exemplos.

Na sociedade patriarcal, cadê os trabalhadores?

São nomes de políticos, médicos, autoridades da justiça e da polícia que imperam. Apenas três nomes de mulheres ou que fazem reverência a elas: Nísia Floresta, Alexandria e Lucrécia.

É a velha relação do maior contra o menor, da sociedade patriarcal. Bonito também seria: Vaqueiro Zé do Gado, Agricultor Antônio das Umburanas. Mas parece sonho que os trabalhadores da terra e das lutas naturais tenham essa honraria.

Ainda existem cidades com nome de santos da igreja católica, o que desfaz a laicidade do estado, no caso do município. Mas nisso nem vamos tocar. Contudo, respiramos quando vemos nomes em tupi-guarani como Assu, Itaú, Canguaretama, Ipanguaçu, Parnamirim e outros mais. Temos essa vantagem.

Por fim, os pauferrenses só têm a comemorar a identidade do nome, a originalidade do gentílico, lutando sempre em favor da manutenção e valorização da cultura de raiz.

Oremos!

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Manoel Cavalcante

Comentários

1 comment

  1. Edilberto C.
    Edilberto Santos 10 dezembro, 2016 at 10:32

    Com beleza se inaugura!Parabéns!

    Os lugares, seus nomes e sua poesia
    Transformados em não lugares
    Quando tomados por nomes próprios
    Como terra de posseiros!

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