O que tem Anitta a dizer à Harvard?

Joseh Garcia
MaisMúsica

Artista brasileira de maior sucesso comercial da atualidade, cantora carioca de 24 anos tem história de superação e traz o funk como voz da juventude da periferia; ela confirmou presença no evento americano.  

Confesso que quando soube da notícia de que Anitta iria participar de um evento na Universidade de Harvard representando o Brasil pensei ser notícia falsa. A ideia da cantora discursando em Harvard me pareceu bastante inesperada e um pouco absurda. Logo percebi que não era o único a pensar dessa forma.

Por que Anitta? E afinal, o que ela tem a dizer? Anitta é, atualmente, a artista brasileira de maior sucesso comercial, conhecida pela música contagiante, de fácil digestão e coreografias sexualizadas, focalizadas no movimento dos quadris.

Talvez possamos concordar que o conteúdo das letras não pareça ser tão relevante, nem o aspecto harmônico de sua música pareça ser tão complexo, ao ponto de justificar o convite para uma palestra em Harvard.

No universo da nossa cultura musical possuímos outros representantes que seriam mais adequados a desempenhar tal tarefa. Por exemplo: Chico Buarque (cujas letras desafiaram inteligentemente a ditadura), Caetano Veloso e Gilberto Gil (artistas reverenciados no exterior pela criação do Tropicalismo e por suas carreiras individuais), além de João Gilberto (criador da Bossa Nova, cuja música conquistou o mundo e influenciou o jazz americano).

Mas por que Anitta, então?

Joseh_Anitta3História de superação motivou convite

Continuei a pesquisar e foi então que descobri que o convite da palestra foi feito por um grupo de brasileiros responsáveis pela organização do evento Brazil Conference. O objetivo em convidá-la foi para que falasse de sua história pessoal de superação.

A cantora já confirmou presença no evento e adicionou que, além de discorrer sobre o assunto, falará sobre business e como administra sua carreira. Sim, é fato que a jovem artista superou muitos obstáculos e se tornou uma mulher empoderada de sucesso.

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Oito anos atrás, Larissa de Macedo Machado postou um vídeo no Youtube que chamou a atenção de produtores musicais.

Criada num bairro da periferia carioca, a jovem cantora de 24 anos atualmente é administradora de sua carreira e se tornou a artista musical mais popular do Brasil do momento.

Ambiciosa e determinada, desde o ano passado, tem se empenhado em conquistar o mercado internacional, o que tem feito com relativo êxito.

Sim, não há como negar sua capacidade administrativa e que ela é um verdadeiro exemplo de alguém que quebrou as correntes do previsível destino de uma moradora de periferia do Rio de Janeiro para representar o Brasil no exterior. Portanto, o convite faz sentido.

Contudo, acredito que existe uma oportunidade bem maior na palestra de Anitta em Harvard: a de chamar atenção para questões importantes presentes na sociedade brasileira e que precisam ser discutidas e digeridas.

Questões estas que vão além de ritmos e melodias musicais e tocam no tecido das teias sociais. Anitta tem uma ligação forte com o funk. Mesmo sendo uma cantora versátil, ela veio do funk e atualmente está de volta ao mesmo com a música “Vai Malandra”.

Portanto, seria interessante ela falar um pouco sobre esse estilo musical e sobre a realidade que o mesmo representa como música originária das favelas.

O desprezo da turma da ‘música de qualidade’

A música e seus estilos musicais não existem num vácuo. Eles espelham e carregam consigo as condições sociais, políticas e econômicas do contexto em que foram criadas. Funcionam como uma fotografia de um grupo social em um determinado tempo numa determinada realidade.

No fim dos anos 1950, a classe média carioca e o baiano João Gilberto criaram a Bossa Nova: música requintada e harmoniosa cujos temas líricos discorrem sobre a beleza da mulher, do amor e das praias cariocas.

O funk carioca, ou favela funk, originou-se nas favelas do Rio de Janeiro e é considerado expressão dos jovens das favelas, em sua grande parte negra, proveniente de uma classe social menos abastada. Surgiu nos anos 1980, explodiu nos anos 1990 e continuou se fortalecendo ao longo das décadas.

O funk foi parido por uma população machucada, frequentemente testemunha de faroestes entre gangs e polícias, balas perdidas e estupros coletivos. Uma população que, para sobreviver, por vezes, teve que desenvolver relações ambivalentes com o crime e com a polícia. Um grupo social abandonado pelo Estado e que encontra alegria e expressão do seu universo em letras e ritmos.

Desde seu surgimento, o funk tem causado polêmicas e, à medida que cresce em popularidade, elas aumentam. Queira ou não o funk incomoda a sala de jantar da classe média com suas letras vulgares. Incomoda pais de adolescentes com sua sexualidade desmedida.

O funk não segue as mesmas regras e recebe de volta a crítica e o desprezo dos de “bom-gosto”. Além disso, o funk serve de bode expiatório: é muitas vezes tido como responsável pela falta de qualidade na música brasileira.

Objetificação da mulher e a cultura do estupro

Em momentos assim, esquecemos que, por décadas, músicas de apelo popular, de letras simples e sexualizadas tem tido lugar cativo nas paradas de sucesso. Basta lembrar a música romântica brega, que se confrontava nos hit parades com o rock nacional, e também, o axé, o pagode e a música sertaneja.

O funk não representa o status quo, assim como, historicamente, por muito tempo, o samba não o representou. Coincidentemente, ambos estilos surgiram de regiões pobres e são considerados música de preto.

Odiado e adorado, o funk é complexo e balança o coração e o corpo das pessoas de maneiras diferentes. Ele representa pessoas que apreciam o estímulo à dança e ao flerte incitados pela música, e aquelas que se sentem liberadas de poder expressar em músicas seus desejos sexuais da forma que são falados no dia-a-dia com amigos.

O funk, como música dançante, revela a força do corpo, do prazer em mover-se, de se exibir e de se sentir atraente. Aglutinador, este estilo de música também acolhe nas letras a sombra e os pontos cegos de uma subcultura e da cultura brasileira em geral.

Nelas também encontramos a objetificação do corpo feminino, a hipersexualização de jovens, incitação à violência e ao estupro, dentre outras. O funk toca nas nossas feridas e é a vida como ela é. Sem photoshop e sem edição, não esconde os excessos, não doma a sexualidade, e dá expressão à agressividade de forma despudorada.

Joseh_Anitta2O funk revela a sujeira escondida embaixo do tapete

Será que conseguimos nos olhar no espelho, sem esconder a realidade dos pobres, dos negros e das favelas? E o que faremos com as desigualdades, com a violência do tráfico de drogas, com os impulsos sexuais? Não é possível esconder a sujeira do nosso descaso com as favelas debaixo do tapete.

O nosso atual cartão postal inclui não só o Pão de Açúcar mas também as gigantescas favelas cariocas e a nossa parada de sucesso é dominada pelo pancadão da música das favelas.

Enfim, ao contrário do que muitos pensam, Anitta poderia ter muito a dizer em Harvard usando não apenas sua história de vida, que é bastante rara por sinal, se comparada com a maior parte das garotas de periferia, mas também ao abraçar questões de classe, raciais e sexistas, e chamar atenção para a realidade dos habitantes das favelas do Brasil.

Indo além de sua biografia individual, a cantora teria uma chance na sua fala em Harvard de representar uma fatia do coletivo brasileiro, para assim oferecer uma discussão mais rica da música que a mesma representa e da realidade da vida nas favelas e na sociedade brasileira.

Mas, no fundo, talvez não queiramos lembrar disso tudo e, sim, apenas balançar o bumbum.

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Joseh Garcia

Comentários

3 comments

  1. RITA VIEIRA - jornalista 15 fevereiro, 2018 at 12:59

    … enquanto só dá Anitta, o BraZZZil não conhece um gênio musical potyguar como URBANO MEDEIROS.
    só isso. pra pensar…

  2. cel. antonio 15 fevereiro, 2018 at 15:46

    QUERIDA RITA, ESTE BRASIL CAPITALISTA, BURGUÊS, DE DIREITA, É UMA TERRA ALIENADA. VC TÁ 100% CERTA QUANDO MENCIONA URBANO MEDEIROS, ENFERMO E TRABALHANDO PARA OS EUROPEUS E AQUI……………………….. NECAS.
    PARABENIZO TB O JOSEH GARCIA PELO BRILHO E INTELIGÊNCIA. GRAÇAS A DEUS MÚSICA RUIM – BUNDA – NÃO ENTRA NA MINHA CASA.
    BEIJÃO FRATERNO PARA VCS AÍ – TODOS (AS)
    ASS.: ANTONIO E SÔNIA

  3. Diulinda Garcia 15 fevereiro, 2018 at 16:40

    Uma abordagem imparcial que vai além desse contexto tão raso revelado pelo funk…Muito oportuno .Excelente texto!

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