O trabalho com a palavra em ‘Fórceps’, de Oreny Júnior

Thiago Gonzaga
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O poeta Oreny Júnior estreia em livro com “Fórceps” (Sarau das Letras, 2015), trabalhando exaustivamente a palavra; palavra esta que se preocupa com uma organização dos versos na tentativa de renovar, fugindo um pouco da poesia lírica, em algumas formas, como no poema  “anuviando”

nuvens

em

forma

de

poemas

caem

nos

meus

cemitérios

O poema é a materialização, a poesia é espírito, a arte encontra-se como elemento subjetivo, na alma da forma, que é poesia.  “Fórceps” projeta-se em várias  dimensões, desde a suavidade do lírico ao  real cotidiano, posicionando a técnica como o centro da sua poesia. Em alguns momentos, nos faz lembrar João Cabral de Melo Neto, com a sua preocupação técnica em montar o poema quase que de maneira arquitetônica.

Em “Fórceps” é evidente o cuidado com a forma poética, numa tentativa de tradução do sentimento do eu lírico, porém o conteúdo não traz novidades. Vale ressaltar a ousadia formal, em alguns versos, que deslizam pelas fronteiras das palavras. Vejamos o poema abaixo:

alinhavando

a

linha

veio

alinhavando

a

língua

veio

alinhavando

a

veia

veio

alinhavando

 

“Fórceps” nos oferece uma poesia competente, muitas vezes, poeticamente densa, reflexiva, e bastante intrigante. Com variadas gamas temáticas e um virtuosismo técnico que vem de uma obstinada atividade criativa. A maneira do  poeta versejar é de uma sensibilidade criadora em sintonia com  a matéria-prima trabalhada: a palavra, num processo de seleção e arrumação vocabular e vasta exploração de significados.

Oreny Júnior canta nos seus versos uma incessante busca pela plenitude da criação artística. Em algumas passagens, o eu lírico revela  preocupação quanto ao sentido filosófico da existência e demonstra a capacidade de transformação do bruto e doloroso em algo bucólico e suave. O eu-lírico nos faz crer que não basta trazer a síntese do que é abstrato ou concreto, e sim transformá-la em poesia. Além de  fazer sentir esse apuro, é na expressão poética que ela tem forte presença da subjetividade, da idealização e da fantasia.

Nota-se, especialmente, o caráter visual alcançado em alguns poemas, que representam uma expansão no alcance e na imagem da poesia. Para o poeta, além de ser lida, a poesia necessita ser vista.  Por fim, reiteramos que “Fórceps” é fruto de um demorado processo de montagem e reflexão, de um poeta que dá inicio a sua carreira com o pé direito.

 

 

 

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Thiago Gonzaga

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