Ondatropica e a releitura de ritmos colombianos

DestaqueMúsica

O que falar de um álbum produzido por um multi-instrumentista inglês que foi morar em Cali e se juntou à velha e jovem guarda da música tradicional colombiana? Tem até Black Sabbath em ritmo de cumbia; como fez o Buena Vista Social Club cubano, Ondatropica é um discaço!

Distante das grandes cidades brasileiras, a Colômbia é um destino turístico menos procurado por nós outros que Chile e Argentina.

Menor interação entre as duas gentes, menor curiosidade por um universo artístico incrí­vel, quase intocado – besta que é o brasileiro ao refutar a cultura latino-americana, numa soberba semelhante a dos Estados Unidos para com o restante do continente.

E hay que ver eso, porque eles já ganharam Nobel de Literatura, com Garcia Márquez; têm um pintor e escultor de renome mundial, Fernando Botero; e viram Shakira entrar no panteão do pop atual, o sonho de Anitta, Sandy e Claudia Leitte.

Ainda tem a arquitetura de Ricardo Montezuma e Gustavo Adolfo Restrepo, dois dos responsáveis pela mudaça na face das principais urbes do paí­s, Bogotá e Medellín. Poucos arquitetos conseguiram tamanha intervenção social, nas últimas décadas.

Onde a cumbia é a matrona

Esse panorama cultural tem sido observado por artistas europeus e norte-americanos, como é o caso do produtor Will Holland, conhecido como Quantic.

Multi-instrumentista, DJ, pesquisador, ele é considerado um dos caras mais talentosos da música britânica atual. Em 2007, através de uma bolsa do governo inglês para intercâmbio cultural, ele aportou em Cali, onde montou o estúdio Sonido Del Valle com a ideia de agregar nuances à  The Quantic Soul Orchestra, sua então banda de trabalho.

Foi questão de tempo para a salsa, a cumbia e o latin jazz mudar prioridades – na vastidão musical colombiana ainda tem gêneros curiosos, como o porro, a chirimia e o currulao. Foram vários projetos exitosos, o principal com o Ondatropica, uma big band com músicos bastante populares por lá.

Quantic se uniu a Mario Galeano para selecionar o time entre a velha e a jovem guarda, sobretudo de duas bandas: o Combo Barbaro (liderada por Mario) e a Frente Cumbiero.

A parceria rendeu um disco homônimo e Baile Bucanero, o mais novo. As crí­ticas foram tão elogiosas que chamou atenção até do New York Times, como Ben Jor suingou em letra.

Na Inglaterra, veículos como a revista Mojo e os jornais The Guardian e The Telegraph elegeram Ondatropica como um dos melhores discos de 2012 (eles tocaram durante as Olimpíadas de Londres, dentro da programação oficial do evento).

Ondatropica_2Tradição popular colombiana + funk, jazz, dub, hip-hop e ska

O Ondatropica foi tratado como o “Buena Vista Social Club colombiano” na tradução jornalí­stica norte-americana para iniciantes. E faz sentido chama-los assim, pelos envolvidos no projeto – é parte da turma da era de ouro da cumbia, nos 50s e 60s.

A cumbia nasceu do choque entre escravos africanos, í­ndios e, claro, colonos espanhóis no litoral do trecho caribenho entre a Colômbia e o Panamá. É aquele som antigo, tido como brega, malhado com o jovem urbano mais “descolado’, com sua versão comercial espalhada por toda América Latina.

Para quem acompanha futebol, é som dos mais queridos na periferia de Assunção, Buenos Aires e Montevideo, vide as dancinhas pitorescas de Carlitos Tevez, ao celebrar gols na época do Corinthians.

Só que existe uma reserva criativa do gênero em formatos tradicionais, que valorizam temas instrumentais. O Ondatropica acertou em cheio ao juntar isso tudo e agregar novos elementos, como a música eletrônica.

Quantic_Christina_Jorro

Will Holland, o Quantic, é produtor e multi-instrumentista inglês que morou oito anos em Cali, na Colômbia, onde criou projetos sensacionais, como o Ondatropica.

Mistura sabrosa

Já falei aqui no Substantivo Plural sobre Camaron de la Isla, e como certos gêneros musicais exigem desprendimento com uma possível malhação de vizinhos.

Você acorda de bem com a vida num domingo qualquer e tasca um flamenco progressivo (sim, isso existe e é incrí­vel!) no stereo. Que pasa? No mí­nimo, acham que a castanhola corre solta na sua mão, como adorno de passos e gestos grandiloquentes de acasalamento.

Com o Ondatropica é a mesma coisa. Para os desavisados, soa como um reggaeton de doidão, música que toca nos guetos portenhos. Mas para quem gosta de ritmos latinos, é uma mistura sabrosa das mais bacanas dos últimos anos.

O álbum Ondatropica foi composto e gravado em modo analógico em três semanas. Evitarei o faixa a faixa batido de resenhas musicais e destacarei apenas algumas.

Pois é difí­cil separar a pancada inicial com Tiene Sabor, Tiene Razón, Punkero Sonidero, Suena e I Ron Man, esta uma versão cumbiera de Iron Man, do Black Sabbath (já pensou?). Tem um dos trompetes mais bonitos já gravados.

Por falar em auroras felizes, Linda Mañana deve estar no juízo do meu vizinho, de tanto que escutei aqui em casa. Também de trompetes belíssimos, ritmo dançante, melodia que pega na primeira audição, o que dizer mais?

A voz de Michi Sarmiento, feito a de Ibrahim Ferrer do Buena Vista cubano, emociona com aquela dramaticidade que só a lí­ngua espanhola é capaz de imprimir.

Grunhidos alucinantes

E tem 3 Reys de la Terapia, uma viagem alucinante pelos dois mundos existentes na Colômbia: os Andes e a Amazônia. Sobre uma base eletrônica acelerada, os caras jogaram uma sanfona pra marcar a melodia e um grunhido que não sabemos se é de um í­ndio amazônico, um escravo africano ou de alguém transando.

Forço a barra ao compara-la com o que os Stones fizeram em I just want to see his face, com o que tinham à disposição na época (cultura e tecnologia)?

Talvez, sim. Só que as 19 faixas do álbum Ondatropica proporcionam uma experiência única. O que dizer da fúria de Gaita Tropica e do ‘sentimiento’ festivo de Donde Suena el Bombo?

Que é uma mostra perfeita do talento de um sujeito do Hemisfério Norte ligado na música contemporânea e da beleza existente neste lado do paraí­so, terra de cultura fértil e aberta para quem deixa o preconceito de lado.

Share:

Comentários

4 comments

  1. Conrado Carlos 26 outubro, 2017 at 11:55

    Pois é, Edilberto. Galera só quer cultura anglo-saxônica, lá de longe, em vez de olhar o que tem aqui do lado.

  2. Laerte 26 outubro, 2017 at 16:47

    Sem comentários para o álbum porque ainda irei ouvir (pelo teaser, estou bastante ansioso para ouvir). Mas meus parabéns pelo artigo, muito bem escrito. Concordo bastante com suas considerações sobre o esquecimento e subestima da cultura latina por grande parte do povo brasileiro.

Leave a reply