Os dilemas de um nobre herói

Milena Azevedo
Destaque

A história curiosa do Surfista Prateado, personagem surgido como um simples coadjuvante, que tomou proporções épicas ao tornar-se o primeiro super-herói existencialista; junto com Batman, Thor e Wolverine, são personagens com as quais me identifico.  

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Stan Lee é um escritor, ator, diretor e empresário que, em parceria com outros quadrinistas, criou super-heróis, como o Homem-Aranha, Incrível Hulk, Homem de Ferro, X-Men e o Surfista Prateado.

Não nos é permitido saber se lograremos êxito ou não. Não há desonra em falhar. Só existe uma vergonha definitiva: a covardia de não ter tentado.”

Quem… O que é você?”

Me chamam de Surfista Prateado.”

Foi com esse diálogo que Stan Lee revisitou o personagem mais nobre e honrado da história da arte sequencial, após vinte anos de sua publicação em tí­tulo próprio.

Para que o presente de aniversário fosse de duas vias, ou seja, tanto para o herói quanto para os leitores, o velho Stan convidou o aclamado quadrinista francês Moebius para produzir a graphic novel batizada de Parabola.

A história do Surfista Prateado já é por si só curiosa, pois foi um personagem que nasceu como um simples coadjuvante e tomou proporções épicas, contando com roteiros e diálogos caprichados, tornando-se o primeiro super-herói existencialista.

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O título ‘Surfista Prateado’ seguiu até agosto de 1970, com 18 números, mas teve que ser cancelado; a fase clássica da “Sentinela do Espaço” é bastante introspectiva.

Companheiro do devorador de mundos

Era 1966, Jack Kirby e Stan Lee procuravam um adversário poderoso para enfrentar o Quarteto Fantástico. Daí­ surgiu Galactus. Porém, Kirby acrescentou um arauto que fazia companhia ao ‘Devorador de Mundos’, arauto esse que logo foi chamado de ‘Surfista Prateado’.

Durante a década de 1960, os super-heróis da Marvel vendiam muito bem. Era um período propí­cio à  criação de novos heróis e tí­tulos. Por isso, em 1968, Stan Lee cogitou criar uma revista com aventuras solo desse nebuloso personagem que era o Surfista Prateado.

Quem aceitou dar vida ao personagem foi ninguém menos do que o lendário John Buscema, saindo de um ostracismo para reencontrar a fama e deleitar seus fãs.

Então, em agosto de 1968, chegava às bancas Silver Surfer # 1, contando a história de Norrin Radd, um habitante do planeta Zenn-la, fiel e apaixonado por sua noiva Shalla Bal, que amava os tempos remotos em que a população de Zenn-la não vivia à  total mercê da tecnologia.

Contrário ao hedonismo e à  passividade de seu povo

Norrin era contrário à  passividade e à pacificidade na qual o seu planeta estava imerso. Em Zenn-la tudo era calmo, tranquilo e perfeito. Não havia exército, não havia armas, o povo já não lembrava mais de como lutar porque vivia no e para o hedonismo.

Eis que Norrin desabafa a sua amada:

“Não posso mais suportar a visão de meus semelhantes… Desperdiçando seus dias na busca de prazeres infinitos e vazios! Até nossos conhecimentos são herdados! Uma vida inteira de ensinamentos é absorvida em meros momentos no interior dos hipnocubos letivos. E nem sequer precisamos desejar nada… pois podemos criar qualquer coisa, sem nenhum ônus, usando o cibermaterializador. Mas a maior farsa éo nosso parlamento! Nossos mais ilustres estadistas desperdiçam todo o seu tempo debatendo com grande solenidade… mesmo sabendo que sua tagarelice é inútil… uma vez que computadores governam nossa civilização. Porém, fui uma voz solitária e perdida… que ninguém queria ouvir.”

Norrin estava temeroso sobre algum futuro ataque ao seu planeta natal, pois sabia que ninguém iria reagir e todos seriam presas fáceis do inimigo. Alertou toda a população em vão, pois não lhe davam a menor atenção.

Seus temores se confirmam quando Galactus chega a Zenn-la para devorar todo o planeta, em sua constante busca para aplainar sua eterna fome.

Para não deixar os seus sucumbirem de forma tão ignóbil, e para não ver morrer o seu grande amor, Norrin vai até Galactus e firma com este um pacto: estava disposto a se sacrificar por Zenn-la, tornando-se o seu arauto, viajando com ele por longínquas galáxias e o ajudando a escolher os planetas sem nenhum vestí­gio de vida, para serem devorados. Dessa forma, morre Norrin Radd e nasce o Surfista Prateado.

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“[…] há uma fase cômica do Surfista, inédita no Brasil, que durou algumas edições nos anos de 1990), HQs essas que não tive coragem de conferir”.

A criatura enfrenta o criador

Tudo corria na mais completa paz e solidão até que o Surfista conduziu Galactus ao planeta Terra.

Ao adentrar em nosso planeta, percebeu que havia vida em abundância por aqui. Alertou o seu mestre do erro, mas Galactus insistia em devorar o novo planeta.

Com isso, pela primeira vez a criatura resolveu enfrentar o seu criador, defendendo a todo custo o direito a  vida humana. Com a ajuda do Quarteto Fantástico, expulsou Galactus da nossa galáxia.

Como punição, Galactus condenou o Surfista Prateado ao exílio na Terra, impedindo-o de voltar a Zenn-la e rever Shalla Bal.

Assim, tem iní­cio as mais belas e filosóficas histórias de um semideus que quer ajudar a todos, mas é incompreendido e tido como vilão.

O título do Surfista Prateado seguiu até agosto de 1970, com 18 números, mas teve que ser cancelado. Essa fase clássica da “Sentinela do Espaço” é bastante introspectiva e rendeu reflexões como essa abaixo:

Seria o próprio cosmo uma centelha de imaginação… acesa por um pensamento aleatório e capaz de ser extinta pela vontade? Será que a realidade não passa de um sonho? E se for… quem será o sonhador? Talvez… talvez seja melhor que nunca conheçamos essas respostas.”

Stan Lee sabia que o personagem requeria tramas mais elaboradas e relutou muitos anos em deixar que outro roteirista o assumisse, e até mesmo ele só escrevia histórias quando se sentia inspirado.

O perdão de Galactus

Mas há tramas muito boas sob a batuta de Jin Starlin, Steve Englehart e J.M. DeMatteis. E por falar em Steve Englehart, foi com ele que finalmente o Silver Surfer conseguiu o perdão de Galactus e a sua liberdade de vagar pelo universo:

“O espaço é infinito. E uma infinidade de estrelas nasce e morre dentro dele… tornando-se vermelhas, azuis, douradas e brancas, de encontro à  noite sem fim… e, ainda assim… algo prateado percorre suas vastidões… um ser… um único e solitário ser… finalmente… livre.”

A história LIVRE (FREE) foi publicada originalmente em julho de 1987, mas os leitores brasileiros só puderam lê-la em 1991, no número 33 de Grandes Heróis Marvel, da editora Abril.

A Abril também foi responsável por publicar boas graphic novels do Surfista, como Os Escravistas e O Juí­zo Final, além de Parábola, citada no iní­cio desse texto; embora tenha pisado na bola com os crossovers Surfista Prateado e Super-homem e Surfista Prateado e Lanterna Verde, que, na boa, ninguém deveria perder seu tempo lendo essas abominações ridí­culas que envergonham o referido herói – aliás, há uma fase cômica do Surfista, inédita no Brasil, que durou algumas edições nos anos de 1990 (se não me falha a memória), HQs essas que não tive coragem de conferir.

Milena_SilverSurfer.2Um herói com reflexões filosóficas

Meu primeiro contato com a ‘Sentinela do Espaço’ não foi nos quadrinhos, mas sim através da personagem de Richard Gere, no filme A força do amor (Breathless, 1983), que tal como o ator, era um fã do Surfista Prateado.

Eu assisti a esse filme na faculdade, por volta de 1997, e fiquei me perguntando por que nunca havia lido nada dele. Eu me lembrei de que, quando criança, tive uma daquelas figuras de plástico da Gulliver com o Surfista, na cor azul, entre os meus brinquedos, mas não sabia quem era ele.

Simplesmente me encantou o fato de saber da existência de um herói que fazia reflexões filosóficas enquanto cruzava o espaço em sua prancha

Foi através do dentista e quadrinista potiguar Williandi Albuquerque que consegui duas edições comemorativas: Silver Surfer # 50 e Silver Surfer # 100.

A edição norte-americana de número 50 tem roteiro assinado por Jin Starlin e arte de Ron Lim e traz uma história chamada Deeply Burried Secrets! (Segredos Profundamente Enterrados!), na qual o vilão Thanos entra na mente do Surfista e o faz relembrar atos não muito éticos de seu pai, o cientista Jartran Radd.

Milena_SilverSurfer.3A capa dessa HQ de 1991 tem o seu logo e o desenho do Surfista em tons de prata. Já a centésima edição, que data de janeiro de 1995, traz na capa um holograma do Surfista e mostra um novo embate entre a ‘Sentinela do Espaço’ e o vilão -demônio Mephisto, que atiça o desespero e a revolta dele ao mostrar uma imagem de seus pais mortos e lembrar ao semideus que:

“You pose and play at being the hero… but the entirety of your life has been a fraud. No substance. You see? You were never anything more…than a hollow man.” (Você posa de herói, mas toda a sua vida não passou de uma farsa; uma vida vazia. Você percebe isso? Você nunca foi nada além de um homem sem sombra.”)

O roteirista da edição de número 100 é o Ron Marz, que tentou retomar o angustiado Surfista de Stan Lee, misturado ao Surfista mais aventureiro de Steve Englehart.

Ron Marz foi o autor da história Dualidade Cósmica, que a Mythos publicou em 2001, no Brasil, com desenhos de Cláudio Castellini.

E tomando como inspiração o traço desse desenhista, o artista plástico e quadrinista potiguar Wanderline Freitas me presenteou com uma linda tela em acrílico.

Wanderline ainda me vendeu formatinhos do Surfista, tirados diretamente da sua coleção. Sou enormemente grata a ele.

Em 2008, a Panini relançou as seis primeiras HQs do Surfista Prateado, em cores, dentro da coleção Biblioteca Histórica Marvel. Ainda não tive vontade de adquirir esse volume, pois tenho todas essas histórias em P&B, que saíram pela Mythos.

Também não li HQs mais recentes, nem as minisséries Surfista Prateado: Réquiem ou Invasão Secreta (acho que são darei chance às HQs feitas pelo Mike Allred, mais pela estética do que pelas histórias propriamente ditas).

Não tenho muita paciência para hiper mega sagas. Prefiro histórias com substância. Gosto quando um herói se auto-questiona e, com um propósito, procura mudar a realidade que o cerca.

Não basta ter super-poderes, tem que saber o que fazer com eles e usá-los para uma boa causa. O herói tem que ser coerente, mesmo que tenha atitudes politicamente incorretas, como a Mulher-Maravilha, que matou Maxwell Lord sem remorso algum, para salvar milhões de vidas.

O Surfista Prateado, junto com Batman, Thor e Wolverine, são os meus heróis preferidos. São personagens com as quais me identifico e gosto de dialogar.

Para finalizar, eis um poema de minha autoria, inspirado na trágica vida do Surfista Prateado.

Sentinela

Sou aquele sonho perdido

o abraço esquecido

no pensamento sentido

 

O futuro engatinhando

no sol poente regressando

ao leito adormecido

 

Sentinela imortal

guardião existencialista

do espaço sideral

 

Ao lado do oriente desperto

se renasci, não sei ao certo

serenidade nunca antes obtida

 

Ao chamado de uma voz cega

viajei por longas eras e me

encontrei naquelas lágrimas ternas

 

Hoje, mudo, grito ao papel

o desejo incomunicável

voltei a ser estrela

surfando no espaço interplanetário

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Milena Azevedo

Comentários

2 comments

  1. Tânia Costa 23 setembro, 2017 at 09:17

    Adorei. Não conhecia as histórias do surfista prateado. Uma figura ça com seus dilemas existenciais. Uma narrativa que cabe aos tempos atuais. Adorei a leveza do texto o que me fez lê-lo até o fim. Belo texto para começar esta manhã.

  2. Milena Azevedo
    Milena Larissa Varella de Azevedo 5 outubro, 2017 at 19:48

    Oi, Tânia!

    Fico deveras feliz em ter lhe introduzido no universo no Surfista Prateado, e que minha escrita a tenha feito seguir com o texto. E, sim, o que se passou aos habitantes de Zenn-la serve de reflexão para nosso cenário atual.

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