Ouço foguetões ao longe. O Brasil de volta aos trilhos

Tácito Costa
Destaque

Daqui do prédio da redação ouço alguns foguetões ao longe, para os lados da Zona Sul, após o resultado da farsesca votação no Senado.

“Que laranjada, pai”, comentou Clarice por telefone no início da noite, quando nos falamos.

No Senado deu para ouvir uns senadores cantando “Vai com deus”, de Roberta Miranda. Trilha bem ao nível de suas eminências.

Em outras partes do país também houve comemoração. Faz sentido. Há quem ache que se tem o que comemorar.

Como a redução das verbas para as universidades, fim do programa contra o analfabetismo, entrega do Pré-Sal a grupos estrangeiros, PLP 257, que desmonta o serviço público, e PEC 241, que reduz os recursos para saúde e educação.

Tudo isso quando existia apenas um governo interino.

Agora é “colocar o Brasil nos trilhos”, como disse o já efetivo, porém ilegítimo governante, momentos depois do golpe. Frase cujo significado real é: “a elite com seus privilégios, o povo com a conta”.

festa

Portanto, o melhor vai começar agora. Afinal treino é treino e jogo é jogo, como ensina a velha e sábia máxima futebolística.

Vem aí a “flexibilização” das leis trabalhistas, terceirização ampla e irrestrita, mudanças no SUS, na Previdência, leia-se aposentadorias, ensino superior pago, entre outros mimos.

Enfim, um pacote bem ao gosto da elite econômica e parte da classe média, FMI, Veja e Globo.

Antes, claro, tem de retribuir a força dada pelo Judiciário. Sem ele, não teríamos chegado até aqui.

Já o povão, os verdadeiros patos da história, esse receberá muito em breve a conta completa do golpe.

Mas nem tudo são notícias ruins. A recuperação econômica é questão de dias. Não falo nem dos retornos da ética e moralidade, isso são favas contadas num governo formado por probos, nobres e brancos cavalheiros.

A grande imprensa até já diz que o país melhorou. E muito certamente, o primeiro setor econômico a se recuperar, após as medidas econômicas e sociais salvadoras, será o de lenços. Recomendo que você se antecipe e compre logo seu estoque, o preço deverá subir muito, em razão da demanda.

Dei uma olhada nos votos dos senadores. Brizola e Arraes devem estar até agora com convulsões no túmulo com os votos de alguns elementos do PDT e do PSB favoráveis ao golpe.

Não tenho nenhuma pena do lugar que a história reservará aos golpistas.

Os vitoriosos de 1964 foram homenageados nos anos seguintes com nomes em estádios, avenidas e ruas, praças e viadutos.

50 anos depois as homenagens viraram pó, motivo de vergonha, e os algozes da Democracia escaparam da cadeia graças a uma anistia imposta. Mas não do escárnio público.

Sempre iremos nos chocar com os golpes no país. Embora não sejam novidades.

A própria República nasceu de um golpe. Depois vieram os de 1930, 1937, 1945, 1954 e 1964.

Violências físicas e institucionais também são marcas indeléveis do país. Que o digam, sobretudo, os negros, mulheres, trabalhadores, índios, minorias, pobres.

Embora muitos tenham se esforçado para inventar um país cordial, hospitaleiro e risonho. Só se for na ficção porque na realidade estamos agora nas ilustres companhia do Paraguai e Honduras, com todo o respeito aos paraguaios e hondurenhos, que também não são culpados da elite que tem.

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Tácito Costa

Comentários

5 comments

  1. François Silvestre
    François Silvestre 1 setembro, 2016 at 17:20

    Tácito, você não reserva nem um pouco de culpa a quem estava no poder, legitimado pelo voto, e se misturou com todos os que estão comemorando? Lula com Maluf, Dilma com Eduardo Cunha, o PT com todos os convenientes de todas as negociações? Peraí. Meu irmão, essa gente não chegou a isso gratuitamente. Mensalão foi um dúvida, escassez de provas. Tudo bem. Petrolão é uma realidade promíscua devidamente provada. O impeachment foi uma violência? Foi. Mas a culpa tá lá e cá. O PT não teve escrúpulo na escolha de aliados. Aliou-se à tripa forra. Renegou aliados tradicionais, cagou na cabeça da ética que sempre defendeu. Não concordo com o resultado, mas sei quem o produziu.

  2. Tácito Costa
    Tácito Costa 2 setembro, 2016 at 09:58

    François, amigo velho, concordo plenamente que o PT cometeu erros insanáveis. Tem culpa sim pelo que está passando. Mas já tem tanta gente repisando isso todos os dias, todas as horas, sobretudo na mídia e no judiciário, que preferi não me somar a eles. Abraço

  3. aldo lopes de araujo 2 setembro, 2016 at 12:25

    Tácito, amigo velho, vejo tudo isso com muita preocupação. Mossa democracia incipiente é cheia de avanços e recuos, igual aos movimentos de uma phoda, onde quem se phode é o povo. Um dia o cabaré apaga a luz, mas antes disso os pobres pagam a comanda e os milicos cobrem todos no pau, nos dois sentidos. O golpe foi dado, porque não se tem provas contra Dilma. Quanto aos roubos do PT, as investigações prosseguiram em seu governo. Que o diga aquela gravação de Jucá, hoje líder do PMDB e braço direitro do ajudante de vampiro, implorando a cassação da mulher “para poder estancar a sangria provocada pela Lavajato”? E depois o que vimos foi a presidente eleita com quase 50 milhões de votos ser julgada por uma plêiade de senadores, a maioria políticos profissionais que, a exceção de poucos, não resistiria a cinco minutos de investigação policial.
    Muito lúcidas as suas observações. Os bolsonaros , os agripinos, os alexandres frota, os caiados e todos aqueles deputados das bancasdas da bala, do boi e da bíblia estão no Céu. Agora é cada um por si e o Diabo por todos. Deus nos abandonou.

  4. Marcos Silva 4 setembro, 2016 at 04:29

    O que está em jogo não é PT, nem Dilma, nem Lula. Uma ditadura foi montada no país. Os cintos foram apertados em você – são torniquetes e outros instrumentos de tortura. Ditaduras acabam mas deixam sequelas insolúveis. A última ditadura brasileira durou 21 anos. Estaremos todos vivos em 2038?

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