Pássaros da Juventude

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beatles3Enquanto passeava pelo ladrilho irregular da Praça de São Marcos em Veneza, o imenso Pedro Nava, médico, memorialista, sem nenhum esforço ou intenção, é bruscamente transportado à cozinha da casa dos avós (na remota infância de Fortaleza), que tinha, coincidentemente, um piso também desigual.

A memória proustiana lhe chega aos borbotões, pelos membros inferiores, de maneira involuntária, incontrolável. Das pernas à medula, e daí às áreas conscientes do cérebro.

Muito depois, ele atribuiu ao chão assemelhado o disparo daquelas memórias, e dos eventos a misturarem momentos de sua existência no estranho redemoinho.

Numa dessas manhãs iguais, enquanto sigo para o trabalho, sintonizo aleatoriamente a rádio que toca em homenagem aos seus 50 anos de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. O Lp inteiro, música trás música é tocado. A princípio soa como uma audição exótica a mais de 100 km por hora, apenas. À medida que o repertório memorável avança com sua força, seus liames sentimentais, naquela velocidade, senti que o som me jogava, sim, sobre a revoada vertiginosa de pássaros da juventude.

Que me levam à Rua Felipe Camarão, Natal, de 50 anos passados, casa do amigo do Colégio Marista, João Batista Caldas Filho.

Coincidentemente para ouvir Sgt. Pepper’s.

Naquela casa havia sempre um disco na vitrola dando passagem a avalanche (hoje talvez disséssemos tsunami) que encantava e revolucionava. E o entre e sai de jovens, de músicos, de aprendizes de poetas, de maria-vai-com-as-outras, de todos que, enfim, naquelas ondas, surfavam ou levavam caldos.

Um mundo novo que se abria.

E ali nós de olhos bem abertos vendo a porta mover-se. Aquelas sonoridades eram os sentimentos que tínhamos do mundo, e que fielmente ali estavam a traduzir-se. Catarse da juventude do mundo inteiro. Encantavam-nos as novidades dos garotos de Liverpool. Assustava-nos sua universalidade. Seus arroubos. Ou sequer pensávamos nisso. Apenas perguntávamos: como tantos, de tantas latitudes e longitudes, em metrópoles e ermos, sentiam-se tão iguais a buscar alívio no mesmo antídoto?

The Beatles, seus rocks e canções e baladas, a melhor tradução, a harmonia, a suavidade, a irreverência, a contracultura, tudo o que nos unia. E amávamos. Como explicar tanta identificação numa língua que era outra, e sequer dominávamos, e ainda naquele tempo onde o inglês passava tão bem mais longe?

As vibrações pareciam tudo explicar. O ritmo, as harmonias, a beleza lancinante, o extravasar. O meio era a mensagem – assim queria Marshall McLuhan. Pegou-nos a todos não apenas pelo pé, mas pelos cabelos (e como!), pela alma profunda, pelo que decerto nunca soubemos nem saberemos um dia explicar.

Mas que foi capítulo excitante de nossa educação sentimental.

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