Crônicas e Artigos

Pílulas para o Silêncio (Parte CIII)

lua

“La poesía es la única prueba concreta de la existencia del hombre”.
(Luis Cardoza y Aragón)

A lua bela, mas sem testemunha, não dizia nada à bicharada. Na terra bruta, a sanha da sobrevivência, sob o ritmo do sol, das garras e do suor, imperava.
A aurora, sem companhia, não lançava nada dentro do coração dos hominídeos. Calcinado e duro, ele tão só o sangue bombeava.
O broto e a flor na cumeada da serra, a surgirem por entre pedras e espinhos, não assinalavam nada aos olhares baixos dos homúnculos; estes só catavam sementes e frutos, mais nada. Com os dedos grossos e os olhos turvos, se se voltassem para o zênite, perdiam o jeito, aperreavam-se com as pernas, as pupilas toldavam-se.

***

Eis que…
Certo dia, no seio de um grupo, do guincho fez-se um grito. Do grito, o espanto. Do espanto, o broto do verbo. Pasmos, recolheram-se, enfiaram-se nas cavernas mais ermas.
Um deles saiu e deu-se com o luar. Sentou-se sob aquele manto diáfano, o peito como se parado ou ferido por um espinho. Muito depois, a alvorada: o espetáculo de cores e luz no céu e o despertar da passarada. Boquiaberto, sentiu a língua como se prenhe de sons e esgares. Ao voltar-se para o horizonte, a flor e o broto. Quedou-se de joelhos, ergueu os dedos grossos e os olhos turvos e disparou uma flamejante enfiada de sons, os quais mais se pareciam com os pássaros do que com os guinchos da sua raça.
Então, nascia concretamente a humanidade; a Poesia a batizara.

 

clauderarcanjo@gmail.com

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