POETA DA SEMANA: Caio César Muniz

DestaquePoetas e Poesias

Caio César Muniz é natural de Iracema/CE, nascido aos 17 dias de novembro de 1972. Filho de agricultor e professora primária, escreve desde os 9 anos de idade. Adotou o calor de Mossoró em 1992 onde ocupou a edição de cultura do jornal O Mossoroense e foi assistente e editor da Coleção Mossoroense. É sócio-fundador e foi presidente por duas vezes da POEMA – Poetas e Prosadores de Mossoró. É sócio do Instituto Cultural do Oeste Potiguar, da Academia Apodiense de Letras e da Academia Iracemense de Letras e Artes. São de sua autoria os livros “E Na Solidão Escrevi” (poesia, 1996); “Notívago” (poesia, 1998); “Sobre o Tempo e as Coisas” (poesia, 2003) dentre outros trabalhos em parceria com Vingt-un Rosado, de quem foi editor-assistente durante seis anos. O jornalista também lançou este ano o “Crônicas a Temporais”, uma coletânea os seus textos publicados no jornal O Mossoroense. Caio César Muniz é nosso POETA DA SEMANA.

—————

SERTÃO DE NUNCA MAIS

Sou o carão agoirando
No meio da madrugada,
Sou clarião no terreiro,
Violeiro na latada.
Na clareira dos meus ais
Sou sertão de nunca mais,
Sou a sôdade marvada.

Sou sanfona choradeira
Fazendo canção pra ela,
Sou correnteza de rio,
Sou menino na cancela
Pedindo um tostão a mais.
Sou sertão de nunca mais
Sou novena e luz de vela.

Sou acauã na secura
Da seca tirana e crua,
Mas também sou o riacho
Banhando a cabôca nua.
Sou o canto dos pardais,
Sou sertão de nunca mais,
Sou o lumiar da lua.

Também sou fogão de lenha
Cozinhando panelada.
Panela preta de barro
Pela fumaça pintada,
Sou duelo de punhais,
Sou sertão de nunca mais
Converseiro de calçada.

Sou cego de mei de feira
Cantando pouco e ruim.
Dançarino de tertúlia,
Uma noiva dizendo “sim”,
Raspando o tacho dos pais,
Sou sertão de nunca mais
Morando dentro de mim.

Sou puxador de reizado,
Sou a força da parteira,
Sou chapéu velho suado,
Sou ramo de rezadeira,
Sou choro nos funerais,
Sou sertão de nunca mais
Presente na vida inteira.

Sou aboio de vaqueiro,
Sou colheita de algodão,
Milho assado na fogueira,
Festejos de São João,
E as plantas medicinais
Sou sertão de nunca mais
Guardado no coração.

Sou tudo isto dizido
Nos lampejos do passado,
Meu sertão que não esqueço,
Meu sertão velho e amado,
Nestas notas musicais
Meu sertão de nunca mais
Se sinta homenageado.

—————

AMOR DE INFÂNCIA

Já vai distante a minha mocidade,
Os verdes anos que a vida leva embora,
Um amor que eu tive, tão puro e sem maldade
E que, com o tempo, se foi de mundo afora.

Um ledo amor daquela tenra idade,
Que se perdeu, nem sei onde é que mora.
Que às vezes vem nas asas da saudade
Trazer lembranças do tempo de outrora.

Pois este amor, que não correspondido,
Foi o mais belo, mais puro, mais querido,
Talvez aquele que mais dores me deu.

Já vai distante a carta apaixonada
Que eu encontrei perdida na calçada,
Que ela rasgou, cuspiu, nem sequer leu.

—————

CANTO DE LIXO II
(Ou A Dança dos Urubus)

Não é possível um país assim, tão rico,
Onde tantos desfrutam seu lazer,
Na cidade ainda haja tanta gente,
Tão perdida sem ter o que comer.

Não é possível sonhar com uma nação
Rica, séria e que possa se dizer
Que seu povo é belo e é feliz
Com estas cenas tão tristes de se ver.

Não se sonha o sonho da criança,
Que no lixo procura a esperança
Sob os olhos ardis dos urubus.

Um país desta forma, meus senhores,
Só nos pode trazer milhões de dores,
Que apesar de vestidos, estamos nus.

—————

SONETOS PARA MEU PAI

Pegá no cabo da inxada
O meu pai nunca insinô
De certo que ele pensava
Que eu ia ser dotô

Mas o distino num quis
Eu também num me ajudei
Mermo assim sigo filiz
Com os caminhos que trilhei

Deus me deu um dom danado
De fazer uns versos torto
Quando eu fico acabrunhado

Então eu faço o que posso
E em um tico de remorso
Eu digo: “Pai, muito obrigado”

Num é que o cabo da inxada
Me fosse fazer vergonha
É que o que o homem sonha
Como projeto de vida

Não é seu moço essa lida
Doída que a gente ver
Um pobre ter que morrer
Pela terra prometida

Mas ainda lembro com orgulho
De um véio chapéu de paia
Cubrino aquela cabeça

E mermo cum toda desgraça
Num tem no mundo quem faça
Com que do meu véio esqueça.

—————

LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA

Um banco de madeira ao pé da porta
vazante, feijão verde, melancia,
um pote na cozinha, água fria
é toda esta riqueza que importa.

Nos fundos do quintal tinha uma horta,
repleta de coentro e cebolinha,
poleiro povoado de galinha,
lembranças de uma infância hoje morta.

Lembrando as belezas do engenho,
revendo as riquezas que hoje tenho,
eu penso: nada disso tem valia.

E se Deus me permitisse um regresso,
eu juro, deixaria este progresso
e nunca meu torrão eu deixaria.

—————

O ROUXINOL

Sorriste em minha telha e foste embora,
Deixastes junto a mim o canto teu.
No instante em que meu canto emudeceu,
Voaste com teu canto mundo afora.

Voaste, e o que é que eu faço então agora,
Não vês que o meu canto se perdeu?
Tu és agora bem mais do que eu,
Calei-me, já não canto como outrora.

Cantar, meu rouxinol, é pra quem ama.
Quem fala, quem recita, quem reclama.
Não é pra quem sofreu e ficou mudo.

Cantar hoje é pra mim recordação,
Do tempo em que eu tinha um coração,
Do tempo em que meu canto ainda era tudo.

—————

ME SENTINDO ACUADO
NA REPÚBLICA DAS PANELAS

Meu voto desrespeitado,
Já era a democracia,
E a cada romper de dia
ME SENTINDO ACUADO.
Procuro por todo lado
Um ruído na janela,
Uma camisa amarela,
Daquelas da seleção,
Mas calou-se o cidadão
NA REPÚBLICA DAS PANELAS.

—————

FOTO: André Bisneto

Share:

Comentários

Leave a reply