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Quando a loucura pinta por aí

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Atividade vai proporcionar que artistas e pacientes pintem uma parede na sala da Residência Artística no Hospital Dr. João Machado

 

Há cinco anos, semanalmente, um projeto integrado de Pesquisa, Ensino e Extensão intitulado “Alfabetização em Arte Contemporânea e Processos de Criação: Investigações Sobre a Loucura”, que realiza a residência artística com a coligação CRUOR Arte Contemporânea, tem um encontro marcado com os loucos do Hospital Psiquiátrico Dr. João Machado. E não é preconceituoso usar o termo “louco” porque as diversas linguagens artísticas que por lá se desenrolam “são pensadas por eles e para eles”, estejam de passagem ou sejam os internos que foram abandonados à própria sorte pela família. Como foi dito, toda semana o Grupo tem uma programação cultural e artística com eles e, nessa terça-feira (8) a artista visual e tatuadora Bia Rocha foi convidada pela coordenação para pintar uma das paredes da sala onde funcionam parte das atividades do projeto. E ela não fará a pintura sozinha. Todos os que fazem parte, sejam alunos, funcionários e pacientes podem participar da pintura.

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Bia Rocha é formada em jornalismo, mas escolheu “pintar as ruas” e fazer tatuagem desde 2010

A programação de maio se coaduna com a agenda da Semana da Luta Antimanicomial do Hospital que, na quarta-feira (9) pretende pintar também a parede do muro externo. Quem quiser saber das atividades e instaurações artísticas do projeto – e se podem participar – basta entrar em contato com a Coordenação a partir da fanpage “CRUOR em Residência Artística no Hospital Psiquiátrico Dr. João Machado”.

Idealizadora do projeto, a professora doutora Nara Salles, que divide sua coordenação com o psicólogo do Hospital, Josadaque Pires, fala que sempre teve uma atração pelas pessoas consideradas loucas e sempre conseguiu uma relação de sensibilidade com elas. Aliando esse sentimento inicial à sua vontade de trabalhar com o Teatro da Crueldade, criado pelo ator, diretor e dramaturgo Antonin Artaud (que foi considerado louco e internado durante nove anos de sua existência), o trabalho de docência e de transmissão da arte, contando com a interação dos loucos foi tomando cada vez mais forma e já se vão cinco anos dentro do maior Hospital Psiquiátrico do Estado.

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Residência Artística leva diversas linguagens artísticas para interagir com os pacientes do Hospital

“O CRUOR é uma leitura desse Teatro da Crueldade, incluindo – como foi a proposição de Artaud – uma integração total entre as linguagens artísticas: dança, performances, pintura, música e outras. As possibilidades são várias, desde que incluam e não segreguem ninguém por motivo algum”, afirma.

 

Imagine alguém que não interage com qualquer pessoa; que fica parada a imensa parte do tempo, que para comer ou fazer quaisquer outras atividades, necessita do auxílio dos enfermeiros e técnicos e, de repente, durante uma instauração artística – nome que é dado às atividades da Residência – a música e um leve roçar da roupa de um dos participantes a fazem levantar e sair cantando, junto com o grupo. Ou então uma outra pessoa que tinha um histórico de reações violentas o tempo inteiro e, ao longo de sua participação do projeto, descobre-se “artista”. E, a partir dessa possibilidade tem condições de ver sua história modificada, sendo reinserido em sua antiga comunidade.

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Pois bem, essas histórias fazem parte do cotidiano de Nara Salles e de seus alunos, e dos pacientes do hospital. Essas últimas, pessoas que fazem brilhar os olhos da professora – que tem dois mestrados, um em Antropologia e outro em Artes Cênicas e mais um doutorado na sua área de atuação (ela é professora do Deart da UFRN), e com um pós-doutoramento em psicanálise em andamento – e dar sentido às suas escolhas. Salles é gaúcha de Torres (RS), a cidade dos Balões, mas já morou em locais como Madri (Espanha), Recife (PE) e Maceió (AL), até aportar em Natal há oito anos.

Ela conta que em alguns momentos ao longo desse projeto eles conseguiram levar pacientes para assistir aulas dentro do Deart – assim como os alunos têm aulas dentro do Hospital. Mas nada é tão fácil. Como não conseguiram ajuda no translado, a solução foi encher os carros de professores e alunos. “Promovendo esse trânsito, a gente contribui para ampliar e respeitar a sensibilidade e a percepção tanto de quem está lá dentro, quanto de quem está aqui fora e tem a oportunidade dessa experiência, sendo uma ocasião ímpar na formação dos alunos da UFRN essa possibilidade de trabalhar com a diferença e aprender a saber como agir com essas pessoas”, observa.

A loucura pode parecer poética. Mas ela também pode ser bastante invisível para a sociedade. Projetos como esse dão espaço, gestos, voz e luz para pessoas que, muitas vezes, não têm oportunidade de serem atravessadas pela linguagem capaz de ser compreendida por sãos e loucos: a linguagem da arte.

 

Crédito das fotos: Wallacy Medeiros e Divulgação Bia Rocha

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Sheyla Azevedo

Comentários

2 comments

  1. José Milanez 7 maio, 2018 at 21:16

    Excelente matéria de um assunto que teimam em deixar difícil na sociedade.

  2. Linda Miranda Costa 13 maio, 2018 at 19:02

    Trabalho humanista e corajoso, pois é altamente inclusivo e desafiador! Parabéns aos envolvidos pelo trabalho produzido e em processo!!

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