Quatro moças e um anjo

Demétrio Diniz
Destaque

A foto é de 1930 e logo, logo, terá cem anos. É uma festa de padroeira, e a vila é Saboeiro, encravada nos sertões do Nordeste. Os homens vestem paletó curto, usam gravata e chapéu panamá e calçam sapatos de duas cores, branco e marrom. Todos usam chapéu panamá, que é um chapéu distinto, próprio para dias festivos.

Ao lado esquerdo da foto há uma pequena banda de música, tocam trompete, saxofone e clarinete. O que toca clarinete possivelmente é Malibeu, que depois, mais velho, por ter ficado muito irritadiço e viver andando sozinho pelas cercanias, ganhou fama de lobisomem. Mas pode ser também Leôncio Ferreira, a vida toda ensaiando no clarinete, enchendo de sons entrecortados as tardes modorrentas e solitárias da vila. No lado direito veem-se umas poucas meninas bem vestidas, aí pelos seis, sete anos. E ao centro quatro moças carregam um caixão de anjo. Devem ter entre dezoito e vinte anos, andam sem chapéu, e o vestido vem até o meio da perna.

O anjo não dá para se ver direito, a foto está bastante danificada, o brilho dos olhos dele, azeitados para encontrar o caminho do Céu, não se reflete na chapa. Como aconteceu a algumas crianças dali, morreu pelo susto com fogos de artifício. Em dias de festa as mães cuidavam de trancar seus bebês na alcova, nos caritós, nos aposentos mais fechados e refratários ao som. Algumas mais prevenidas, tapavam os ouvidos das criancinhas com lã de algodão. Mas Socorro Vidal, a mãe do anjo da foto, se descuidara. Na ânsia de se embevecer com os fogos de lágrima caindo silenciosos do céu, esqueceu os de estrondo que viriam em seguida e sentou-se à calçada da casa com o seu primeiro filho. A morte durou o tanto da explosão do foguetão.

O que permanece uma incógnita, porém, é a presença das quatro moças no meio da festa. Estão junto à banda, na alegria que entornava o ambiente, tal que até os carros Ford da época buzinavam concertados de instante em instante. Poderia se pensar que levavam o caixão à igreja para ser benzido, mas a igreja, como o cemitério, ficava às suas costas, ou seja, na direção oposta a que se dirigiam. Por qual motivo estariam então com um caixão de anjo numa festa? A celebração da morte, como ocorre em algumas tribos indígenas ou africanas, nunca chegou até aquele local. Numa terra de muita escassez, só a reverberação da dor a garantir a tradição do sofrimento: velórios longos com chá de cidreira e bolinhos de goma, as carpideiras, os desmaios à beira da sepultura, os retratos dos mortos pendurados nas paredes, as litogravuras estampando o martírio dos santos.

Vindo do outro lado da vila, e tendo de atravessar os festejos, não teriam as quatro moças parado para um retrato, consentindo na captura não da morte, mas do viço de sua juventude? E enquanto o retratista enfiava a cabeça no saco de pano da máquina se colocaram ao lado da banda, no miolo mesmo da animação, dando a impressão, ao se examinar a foto, de estarem elas também participando da festa? Talvez sim, talvez não, como gostava de escrever meu irmão Neto, nas suas cartas de amor, fabricando da incerteza um anzol para a paixão.

Não posso concordar com a hipótese de Cristalino Oliveira, de que foram atraídas pelo clima de entusiasmo, coisa comum aos jovens. Numa localidade em que só havia uma festa por ano — argumentou Cristalino — não teriam hesitado ao convite dos rapazes para a quermesse montada ao lado. Cansadas da monotonia da vila, teriam aceitado afastar a tristeza com alguns goles de cajuína, aluá de abacaxi ou outra bebida de então, repassando o enterro para as meninas, o que não seria um malfeito, pois anjinho é comumente levado por crianças. Acho pouco provável tal hipótese. Conheci quando pequeno as moças do sertão. Não abandonariam um enterro por nada, até porque cortejo fúnebre, seja de anjinho ou defunto, ganha ali ares de drama, uma encenação do sofrimento da qual anseiam participar. Avisadas da morte, logo ao amanhecer as meninas catavam flores pelos cantos dos muros, pelos arredores da vila, retiravam do odor da naftalina seus vestidos pequenos de cetim azul, tiravam das caixas os sapatinhos de festa também azuis, armavam a coroa de flores com que iniciariam o cortejo, a coroa a ser ostentada à frente como uma peça litúrgica, e cedo ensaiavam as cantigas dolentes da despedida. No barro vermelho da única rua de Saboeiro via-se pela manhã e à tarde a mancha de azul, como uma pequena nuvem se arrastando aos cânticos pelo chão.

De Joana Praxedes, ex-Presidente do Apostolado da Oração, e que ajudou na construção da matriz, ela e os membros da irmandade carregando por quilômetros e na cabeça latas de areia, tudo porque anoiteceu desenganada, sentindo o bafo da indesejável, e na manhã seguinte já moía o milho do cuscuz, colhi outra explicação merecedora de nota. Esta sem conduzir à precariedade da vida no sertão, mas, ao contrário, pelo que se vê, a um mundo de fartura e generosidade. Joana Praxedes atribuía às quatro moças uma atitude improvisada. A de que não encontrando o padre Luís Mariano na igreja, para benzer o anjo, o procuraram na quermesse, onde deveria estar ganhando no leilão galinhas, marrecas, bacurins, vacas, novilhos de touro, faixas de terra, dinheiro vivo e até mesmo um despolpador de arroz, que lhe chegavam às mãos como ofertórios à santa.

Outras versões ouvi, embora de pouca ou nenhuma verossimilhança, por isso mesmo deixadas sem registro. Guardei por último a versão de Hermenegildo Abrantes, a qual andei hesitando em transcrever porque, tingida pelo amargor, poderia estar contaminada.

Maio era esperado naquele lugar como o mês da padroeira, celebrado pelas novenas rezadas de casa em casa, o andor da santa numa peregrinação diária até o último dia. Tão esperado que Honorata Maria da Conceição no primeiro dia do mês, debruçada sobre a meia-porta de sua casa e entre uma baforada e outra do cachimbo, indagava dos serrotes que se estendiam no horizonte as boas alvíssaras de maio. Mas para Hermenegildo Abrantes, curtindo a velhice nos vapores do ressentimento, um deles porque a localidade até hoje não prestou qualquer homenagem aos seus parentes comerciantes, esquecido ele de que esta é uma categoria sem brilho, maio era o mês dos anjos. Com a pegada do inverno, e devido ao reverdecimento do pasto — conta Hermenegildo —, enxames de moscas, como um bordado negro, infestavam os pratos, a mesa, o chão, as feridas, os olhos remelados das crianças, a cabeça dos velhos. Moscas sempre presentes pelos currais, no úbere das vacas, no focinho dos porcos, na bicheira dos animais, no bico improvisado das garrafas de guaraná que serviam de mamadeira. E à conta desse mosqueiro sem tamanho, Raimundo sacristão se queixava todo dia do braço doído de tanto repinicar com dobres finos o sino pequeno da igreja velha. Nos morticínios de maio, na abundância da morte — Hermenegildo garantiu —, tudo era possível acontecer, podendo até mesmo as moças terem esquecido o caixão numa das mesas da quermesse.

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Demétrio Diniz

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