Real Império da Província – R.I.P.

Carlos Gurgel
ColunistasMúsica

“Esse menino agora se vai. Ele agora consegue entender, por estar do outro lado, a pequenez disso tudo. Como se fosse necessário dizer, enquanto por aqui ele viveu. Com suas alpargatas e seu reconhecível bigode”. Sobre a morte de Belchior (1946-2017)

Hoje, confesso, tive que vir até aqui, para compartilhar minha enorme tristeza. Tristeza me domina. Um grande, enorme ser, hoje se foi (corrigindo, hoje não, faz tempo). Como um farol, enorme luminosidade. Daquelas pessoas imperdíveis. Como a dizer para todos nós sobre essa face dilacerada desse nosso mundo.

Desde seu início como um paladino interprete, possuidor de um vocabulário precioso, repleto de fotogramas, de delírios, de uma textura filosófica ímpar, de tanta aridez e ternura. De tantas cáusticas letras, como a sonhar com um mundo livre de problemas, dores, desassossegos.

Foi lá pelos anos 70 que a rádio tocou. Anunciando um cantor. Anunciando que um dia poderíamos ser felizes. Uma síncope de um coração batia, espalhando com o seu esplendor a raça de uma poesia nua e crua. Sem arrodeios. Como a cingir pelos seus versos a travessia de um país, de um povo. De uma lástima, de uma lágrima abarrotada de encruzilhadas e abismos.

Uma dissertação de tão profunda inquietude nos revelava a infinita capacidade desse artista sobre esses dias, semanas, meses, dessas nossas décadas escuras. O olhar, a ampulheta por onde esse artista mira e se vê. Por onde ele caça enigmas e atalhos. Por onde ele sobrevive por sobre a crosta seca de um sertão secular. De um chão polvilhado de crateras e tragédias. De um tempo por onde as baionetas e sirenes, escolhiam datas e personagens. Por onde a esperança por um fio morria de fome e dos escondidos sorrisos.

Belchior_3Esse menino agora se vai. Ele agora consegue entender, por estar do outro lado, a pequenez disso tudo. Como se fosse necessário dizer, enquanto por aqui ele viveu. Com suas alpargatas e seu reconhecível bigode.

Pois seu verbo, implacavelmente cirúrgico fez dessa sua perseguição por inteiro outro tempo, sua maior vontade. Sua maior constelação. Seu maior sonho. Esse interprete escalou o silêncio da noite, como quem ama o destino de tudo que aos poucos perde a vontade de por aqui permanecer.

Pois seus olhos, como cacimbas, como carimbos, como arvoredos a serviço de uma ambição libertária, ficaram solitários. Já não mais se interessavam pelo vil metal, pelas vias sanguinárias de uma trajetória distante do amor, da simplicidade explícita, e de tudo por onde ele um dia acreditou e benzeu sua luz, como cruz de tanta coragem e incalculável destemor.

Assim, como um sonhador e mirante, esse ser criou mapas, meias, moradias. Criou expectativas e crepúsculos. Íntegras verdades, um rio, uma nascente de tanta inquietude e justa geografia. Proclamou pelos palcos, ruas, camarins, aeroportos, vielas, palacetes e quitandas, sua letra, tão apocalíptica e infinitamente bela e rara. Distribuiu como um franciscano, seus recados, suas mensagens, suas inequívocas rupturas. Cavalgou com seu arco, sua barca, essa complexa arca, por sobre as pradarias de uma nação em dor.  Alicerçou seu punhal ao redor das estradas barrentas e benditas. Incondicionalmente amou esse chão, e por ele escolheu sua morada. Insistentemente duelava com pensamentos íngremes, densos, habitat de ranhuras, como escuridões sem par.

Transgressor, varreu o óbvio, pôs por terra a composição sem asas, ecoou a blasfêmia criadora e libertária. Libertou a graça escondida por sobre o fardo de uma paisagem daltônica e ausente da beleza de um cais. De tantas partidas e chegadas.  De tantas ausências. De tantas esperas. E esporas.

Belchior_2Como um notívago, garimpou a flor de uma saudade intensa, sem forquilha, mas com um profundo respeito pela sofrida vida de todos nós. Foi o tempo todo um navegante. Singrando como um poético pássaro, a tez de uma imagem eterna. De uma aquarela por onde todos nós, nus, nos salvaríamos. Essa lua, essa rua, inclemente estigma e enigma. Como uma dádiva que pelo tempo penetra o clarão de um sujeito à mercê das suas mãos e milagres.

Esse tempo, definitivamente rouba de nós, nossos ouros, couros de uma ribalta, ribeira sem paz, sem ás.  Rouba de nós, nossas ruas, testamentos, testemunhas, personagens, criaturas. Rouba de nós a descoberta de um óbvio, por ser tão óbvio, tão dilaceradamente complexo de ser localizado.

Pois assim, eles são árvores, lunetas, infinitas colorações de um alvo, tão singular e pedido por todos. Pois o olhar de um raro artista capta essa gruta, esse cânion, por onde todas as riquezas estão guardadas. Trancafiadas como o sustento da humanidade, e por séculos de escuridão e de tanta escravidão.

Que esse tambor, essa plena sinergia, nos fortaleça. Pois seu nome grifado nos nossos ombros, são como alicerces, alvos, alvoradas. Tão única poesia. Tão imbatível filosofia de um moço que tão precocemente nos deixou. Deixou como seu tesouro, essa sua inquebrável corrente, que a todos libertava, que a todos acordava, que a todos espantava.

Que ele agora, (como sempre demonstrou ser), por sobre outras montanhas e profecias;  alicerce esse seu olhar como um notívago sem janelas, como um andarilho sem sinais e trancas, como um sonhador eterno. Justo como merece estar: entre o limbo do efêmero e da luz por onde a eternidade reina e emudece.

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Carlos Gurgel

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