Retorno à “Caixa de Inutensílios”

Tácito Costa
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“Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe” (Gil)

Invento de colocar umas fotos afetivas em porta-retratos.

Era uma ideia antiga, mas nunca tinha parado para concretizá-la.

Estão guardadas numa caixa bacana que recebi com um espumante dentro. Gratidão por um pequeno serviço de Assessoria de Imprensa que fiz para uma microempresária, atendendo a pedido de um amigo.

Antes essas lembranças eram guardadas noutra caixinha, também muito simpática, da loja Richards.

Mas não cabem apenas fotos nelas.

Também estão lá cartões de viagem recebidos, cartas, bilhetes, convites de missas por ente familiar, todas as carteiras de estudante, a primeira carteira de identidade, muitas fotos 3 x 4 tiradas para documentos nos últimos 40 anos.

Ao longo dos naufrágios, fugas e enxotamentos a que sobrevivi nos últimos anos é a primeira coisa que busco salvar.

Quem pensou que eram livros, enganou-se.

Esses eu posso comprar depois ou pegar emprestado ou ganhar.

Mas essas lembranças em papel fotográfico, que algumas vezes mais parecem chicotes em nossas costas, não são cambiáveis. Muito menos descartáveis.

porta-retrato1

Acordar para lembrar. Dormir para esquecer. Embora às vezes os sonhos e pesadelos não nos permitam esse luxo.

Então, é enfrentar esses fantasmas de papel tão reais e presentes.

Antes de ir ao querido Alecrim abro a caixa para ter uma noção de quantas molduras vou precisar comprar. Não fazia isso há bastante tempo.

Constato com tristeza mais uma perda. Meu velho pai agora é só uma fotografia na caixinha.

E como diz o poeta: “… Como dói”.

Mas não é a única perda.

Outras se acumularam. Parentes e amigos encantaram-se, algumas amizades azedaram, mulheres apagaram-me de suas vidas, cartas, cartões não chegarão mais.

Principalmente agora com as redes sociais, com a profusão de fotos e mensagens efêmeras, banais e sem alma.

Sem falar que a qualquer momento perdemos tudo, seja quando nos furtam o celular ou quando quebra o computador.

Meu irmão outro dia falou-me que estou andando curvado, que tenho de melhorar a postura.

Pensei, deve ser o peso dessas perdas que a cada ano vão se somando uma às outras. Não tem como não envergar.

Nessa última ida à caixa de velhos papéis guardados pensei-lhe em dar-lhe um nome. “Caixa de Inutensílios”, remetendo ao poema “Sabiá com Trevas”, de Manoel de Barros (“O poema é antes de tudo um inutensílio”).

Foi o nome que mais gostei. Por razões óbvias.

Cheguei a pensar, inicialmente, em “Caixa das Perdas e Danos”. Mas achei muito forte. Desproporcional. E um tanto mesquinho. Porque não corresponde inteiramente à realidade.

Claro, as perdas, por doerem tanto, ocupam mais espaço.

Mas ali tem ganhos impagáveis, sobretudo as amizades que resistiram ao tempo, esse demônio voraz e inclemente que a tudo transforma em lembranças e pó.

Oferece-me de graça, também, boas recordações e um balanço do que eu fui e me tornei, ou do que eu fiz com a vida que me foi dada viver.

O que não é pouco, diga-se de passagem.

Suscitam também incômodos e às vezes dilacerantes questionamentos diante de alguma foto.

Poderia ter sido diferente? Pergunto à imagem surda e muda.

No meio de tantas, escolhi umas dez fotos para emoldurá-las. Familiares e alguns dos melhores amigos estão nelas. Ficaram de fora outras que gosto e penso em emoldurá-las depois.

Na casa de mãe-vó, que me criou, a saudade mais doída de toda a “caixinha de inutensílios”, havia esse costume, seguido na de minha mãe.

Os que se foram, de alguma forma viverão em mim para sempre. Levo-os comigo. Aqueles que mais amei e me deixaram levaram também bons pedaços de mim.

Ninguém chega mesmo inteiro no final do caminho, que para a imensa maioria é cheio de espinhos e para uma minoria coberto de flores.

Eis o mundo.

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Tácito Costa

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