Rito de passagem

Tácito Costa
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Conheci-o ainda quando se chamava José Agostinho da Silva e trabalhava como garçom no Bardallos, bar no centro da cidade frequentado por artistas, intelectuais, carbonários, ativistas sociais, políticos e das causas incertas e perigosas. Os mais íntimos o tratavam por Dedé.

Acredito que o contato com essa trupe acendeu nele a chama de tornar-se artista. Um sonho que foi crescendo até um dia me falar que estava deixando a carreira ingrata de garçom para iniciar na vida artística. “Um bando de lisos e amarrados”, disse, referindo-se à eclética fauna que passava pelo famoso bar.

Ele já havia me mostrado alguns desenhos, que eu elogiei, como faço sempre com trabalhos a mim apresentados por aspirantes e antigos artistas, sabedor que sou de que todos no fundo esperam um elogio, não vindo ao caso se é falso ou não.

Era falante e bem humorado. Disse-me mais de uma vez que iria se tornar um grande artista plástico. “Maior ou no mesmo nível de Newton Navarro e Dorian Gray”, garantia, com os olhos acesos e aquela determinação só encontrada nos fiéis empreendedores das igrejas pentecostais e em livros de auto-ajuda.

Deixou o bar e perdemos contato durante algum tempo. Meses depois, nos encontramos no Sebo Vermelho e ele me contou que estava em Pipa, com sua terceira mulher, onde fez um estágio intenso e revolucionário com um famoso artista plástico da Moldávia.

Acompanhei de perto a carreira desse velho conhecido, que me tinha uma atenção especial, talvez pela paciência resignada com que o escutava. A excessiva educação e a cara de leso transformaram-me em alvo fácil dos falantes compulsivos da cidade. Não era bem o caso de Dedé do Bardallos. Eu até gostava de ouvir suas histórias pelo inusitado e humor de algumas delas.

“Agora estou pronto para viver o meu sonho”, disse-me, sorrindo, uns dois dias antes de abandonar o Bardallos. Eu tomava o meu primeiro Ron Montilla com Coca e limão da noite. O bar tinha aberto há pouco e eu era o único cliente. Achava tudo aquilo de uma ingenuidade tocante, abandonar o trabalho por uma miragem, mas faltou coragem para adverti-lo e também porque tinha consciência de que conselhos são inúteis.

Ele estava obcecado com a idéia de virar artista. Sorrindo, filosofou: “Imagine uma nova história para sua vida e acredite nela”. Perguntei de quem era a frase e ele compenetrado respondeu: “Do mago Paulo Coelho”.

Para atingir esse sonho ele fez de quase tudo. Algumas coisas sem maiores consequências. Como mudar o nome para Joseph August, atendendo à recomendação do seu guru moldavo.

Mas, se a mudança de nome ocorreu sem dores e problemas, o mesmo não aconteceu com a segunda sugestão dada pelo artista europeu Edward Schechner, com quem ele fez o estágio na Praia de Pipa. O renomado artista garantiu que se tratava de um pré-requisito para uma entrada triunfal no fechado circuito artístico de Natal e abrir as portas das leis de incentivo à cultura para futuros projetos.

E se a estréia de Joseph A. , como passou a assinar, não foi assim tão triunfal, em termos puramente artísticos, pelo menos causou grande alvoroço e seria comentada durante muito tempo.

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O meio cultural nunca esqueceu sua performance pioneira na Galeria de Artes da Biblioteca Câmara Cascudo. O local estava lotado, autoridades, intelectuais, artistas, pessoas do Jet set com seus perfumes impróprios a alérgicos, quando ele irrompeu, vestido de cangaceiro, aos mugidos, com um coração de boi pingando sangue pelo chão.

Corre pra lá e pra cá com esse coração e o resultado foram paredes e pessoas atingidas pelo sangue do animal. Entre urros e lágrimas, repetia a frase: “Vou transplantar no coração do meu pai ”.

No outro dia, a polêmica tomou conta das redes sociais. Em nota, a coordenação da biblioteca explicou que não sabia que o coração era real, achava que era de plástico.

Ao que Joseph A. refutou, não fazia arte plastificada e sim arte real, pulsante e visceral, com sangue nas veias. Em entrevista, respondendo aos críticos, auto intitulou-se um artista “Descoisante”.  “É chegada a hora de descoisar as coisas que estavam coisadas na capitania do Rio Grande”.

Jornais noticiaram com destaque o happening “Um novo coração para o papai”. Artistas, escritores e jornalistas opinaram sobre o trabalho que, segundo o autor, tinha “como objetivo chamar atenção para o coração desalmado dos pais”.

A discussão nas redes sociais se transformou numa guerra aberta entre detratores e defensores de Joseph A. O jornalista Beto Analfa, conhecido por opinar sobre tudo, e de quem se dizia que nunca abrira um livro ou assistira uma peça ou filme, assegurou que aquilo era parte de um plano para desmoralizar as instituições, não havia dúvida de que o PT estava por trás da performance. “Os comunas são ardilosos, começam arruinando os princípios morais da família, avançam sobre a propriedade e implantam a ditadura do proletariado, urge uma intervenção militar”, sentenciou no Facebook. Betinho era o único chato que conheci que se vangloriava de ser chato, razão porque muitos consideravam-no um inusitado caso clínico para a psicanálise desvendar.

Diante do bombardeio midiático Joseph A. saiu a campo para se defender. “Natal não está preparada para a arte revolucionária, descoisada, para o pós tudo, o povinho daqui ainda respira boi calemba, eu sou um artista pós coisa, que superou o pós moderno e ingressou na arte galáctica”, disse Joseph A., em outra entrevista, denominando-se o criador de um novo movimento artístico intergaláctico, “a arte galáctica”. Os gaiatos de plantão não perdoaram e logo passaram a chamar a tal nova escola artística de “arte galada”.

Mas nem todas as críticas foram negativas. Colegas de Joseph A. chamaram a atenção nas redes sociais para a pegada psicanalítica da performance, outros viram influências do futurismo russo, do Poema Processo, do pós-moderno, do João Redondo de Chico Daniel, do Movimento Armorial, de Marina Abramović e Joseph Beuys, tudo junto e misturado.

O renomado escritor e crítico Carlos Ramalho de Sena, contudo, conhecido pelo azedume e ressentimento, declarou que tudo não passava de um engodo e o artista estava mais para um vendedor de final de feira livre, gritando esbaforido em busca dos últimos fregueses. “De papangu já estamos cheios”.

O conceituado colunista Walder Cedo escreveu que não viu nada demais no “repeningue” (happening), que nos anos 40 um americano fez uma apresentação muito parecida, na Base Aérea de Parnamirim, sendo que o coração era de búfalo do Oeste dos EUA. O fato, segundo ele, está registrado em uma das Actas Diurnas de Câmara Cascudo.

Foi, de fato, uma estréia e tanto. Mas esse início atribulado não foi bem digerido pela comunidade artística, obrigando o jovem a tentar nos anos seguintes toda sorte de estripulia para ter o seu nome incluído no establishment cultural natalense.

E a mais controversa, sem dúvida alguma, foi seguir os conselhos do amigo europeu de Pipa. A segunda recomendação, sobretudo, considerada essencial para o êxito de uma vida artística longa e profícua e com reconhecimento garantido.

Pouco se sabia sobre esse Edward Schechner. Medindo 2 metros e 05 centímetros, era muito branco, que o sol dos trópicos transformara em vermelho, usava cabelo comprido, desgrenhado e cavanhaque, o que lhe dava uma aura de profeta, louco ou artista, dependendo de quem o olhasse de perto. Tinha mãos imensas e contava que jogara na seleção de basquete do seu país nas Olimpíadas de 1992, em Barcelona, onde conheceu uma atleta brasileira e decidiu migrar para o Brasil anos depois. Cursara Artes na Universidade Central da Moldávia, depois passou uma temporada em Londres, onde foi discípulo de Sir Anthony McCulloch Farnham, renomado artista inglês. Aos que cobravam uma exposição (já estava em Pipa havia cinco anos), dizia que as belezas naturais do lugar tinham bloqueado sua criatividade. “Pipa é a própria estética e isso é tudo”, conceituava num português estropiado.

Conforme Joseph A., no grande dia, o amigo chegou em sua casa-ateliê na Pipa com uma garrafa de vodka e uma fanta laranja. Funcionariam como desinibidores para enfrentar o rito de passagem. Depois de três doses, o europeu pediu para Joseph A. tirar a calça e ficar de quatro. Ele, meio desconfiado, tomou mais uma. Emborcou o copo de uma vez.

Em seguida, fez o que o estrangeiro pediu. As primeiras tentativas não deram muito certo porque o gringo segurava em uma das mãos um pau de selfie. Era preciso registrar o grande momento para depois jogar nas redes sociais. Pegaram um tamborete. Joseph levantou uma perna e o estrangeiro acunhou com força, precisão e método.

Atordoado, Joseph A. deu um grito lancinante, ouvido três quarteirões adiante. A única coisa que conseguiu dizer foi: “Entrou?”, desfalecendo em seguida, banhado em suor.

“Doeu muito, pra nunca mais”, disse-me Joseph, balançando a cabeça  pesaroso, sobre as consequências físicas e emocionais por ter seguido o conselho do galego além-mar.

Eu não comentei com ele, claro, mas pensei comigo que deve ter sido decepcionante ter se submetido ao tal “rito de passagem” e constatar nos anos seguintes que nada adiantou. Reconhecimento e dinheiro continuam longe da vida do meu amigo, embora ele ainda alimente o sonho de tornar-se um Van Gogh do sertão.

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Tácito Costa

Comentários

3 comments

  1. Hermes Halley 2 janeiro, 2017 at 22:28

    Belo texto!
    Tão surreal que estou aqui a me perguntar.
    Isso tudo aconteceu?
    Putz Grila!
    Era como a gente dizia nas antiga.
    Se tiver acontecido, parabéns por ter vivenciado a história e ter conseguido tirar dela um encanto real.
    Se tiver sido imaginária, melhor!
    Saudações!

  2. Walder Cedo 3 janeiro, 2017 at 09:28

    Meu caro Tácito! Sua verve, observo, permanece intacta (o que não se pode dizer do pobre Dedé do Bardallos). De muitas mugangas, como lembrava o confrade Carlos Ramalho de Sena, é feita essa província, Felizmente, temos um observador atento e cético, como você, que nos dá o ganho de narrá-las. Alguns poderão duvidar da veracidade da narrativa, mas dou fé e ciência da veracidade dos fatos, comprovada no detalhe – um conhecimento compartilhado com poucos – do seu gosto por uma Montilla com Coca ao cair da noite. Salut! Do sempre seu, Walder Cedo.

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