Roberto Carlos: uma força estranha

Lívio Oliveira
DestaqueMúsica

NÃO FOI SEM ESTRANHAMENTO que eu presenciei, no último sábado, na Arena das Dunas, o espetáculo do cantor mais carismático do país: Roberto Carlos.

Algo como ver um dinossauro caminhando numa praça pública de Natal. Claro que a expressão “dinossauro”, em sentido figurado, é bem cabível e até guarda conteúdo afetuoso. Ainda mais quando se trata da primeira vez em que eu via o septuagenário ídolo nacional de perto, com direito a ouvir sua voz ainda límpida e ver os seus curiosos, sedutores (a mulherada delira) e até exóticos movimentos sobre o palco, suas roupas azuis e brancas impecavelmente cuidadas, seus cabelos alisados e desfiados sobre a testa e o rosto magros, quase recobrindo os olhos pequenos e fundos. Fiquei fascinado com o poder de atração das massas que uma figura aparentemente tão frágil e um pouco melancólica ocasiona. Não restou dúvida: aquele Rei não perdera a majestade.

Durante o show eu me perguntava sobre essa necessidade que o brasileiro tem de manter em evidência “realezas” que representem o ápice do carisma, não necessariamente positivo, de alguns ungidos social e popularmente: Rei Pelé, Rainha Xuxa, Rei Roberto, Rei do Baião (Gonzagão) etc. Até no Rio Grande do Norte temos lances assemelhados. No caso de Roberto Carlos eu consigo entender direitinho. O sujeito é talentoso, possui uma voz rara e bela, respeita o público em palco, é altamente profissional e meticuloso, certamente cuida de muitos detalhes (olhe aí, a canção!) do espetáculo pessoalmente, repete uma fórmula que vem dando certo e se consolidando há décadas.

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Roberto Carlos é uma personalidade que encarna tudo o que o ser social brasileiro parece almejar: o bom moço, realizado, bem sucedido profissional e economicamente, homem de amores verdadeiros, heterossexual convicto e praticante, solidário, atencioso, cavalheiro, dentre outros atributos. É certo que os seus “equívocos” do passado e do presente terminam sendo postos à margem diante de um desempenho pessoal e profissional tão diferenciados e firmes ao longo do tempo. Claro que nessa escolha popular também se revelam nossos preconceitos e fortes complexos. E aí é que surge o Rei-amigo-de-fé “cordial” (Sérgio Buarque de Holanda presente, meu caro cineasta e guru Augusto Lula!), agigantado diante da paupérrima, instável, líquida mesmo (Bauman nos socorra!) realidade nacional “semi-republicana”, presidencialista (ou “vice-presidencialista”) que temos e que ainda não compreendemos, nem aceitamos.

De qualquer maneira, a minha obrigação naquele ambiente banhado pela luz da lua (estava belíssima!) e dos holofotes e iluminação fantástica e multicolorida, era tão-somente me divertir e me emocionar, juntamente com a minha esposa – não tão ansiosa pelo show quanto eu, pasmem! E isso foi feito, com tudo a que tínhamos direito, com as canções históricas de nossas vidas se sucedendo, de maneira que me vinham sempre à mente momentos vivenciados em mais de quarenta anos acompanhando de longe a carreira desse ícone de nossa música popular. Enquanto ele distribuía, ao final, ao som de “Jesus Cristo”, algumas dezenas de rosas para um divertido e quase histérico grupo feminino, ainda lembrei da primeira vez que ouvi RC, num disco compacto de 33 rotações que pertencia ao meu pai, com as canções “Amada,amante” e “Eu só tenho um caminho”, no Lado A; e “Meu pequeno Cachoeiro” e “Pra você”, no Lado B. Definitivamente, constatei: esse ícone nacional possui mesmo uma persuasiva e renovada “força estranha”.

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Lívio Oliveira

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