Romance de costumes

François Silvestre
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Arte: O batizado de Macunaíma (Tarsila do Amaral)

Fosse o Brasil apenas um personagem, seria de um romance de costumes. Não caberia nos textos de um romance épico ou romântico; e muito menos nas densas páginas de um romance heroico.

Não seria de guerra, mas de violência. Não seria de revolução, mas de golpes. Não seria de história, mas de invenções. Não seria de política, mas de trampolinagens.

Não seria de qualquer escola clássica. Nem do renascimento. Não teria o mistério penumbroso da Idade Média nem o estoicismo do sofrimento romântico. Não descreveria serenatas nem empunhava espadas. Seus espadachins fugiriam antes do duelo.

E por ser um romance de costumes, seus personagens também são contumazes. Não desistem nunca da safadeza consuetudinária. Refinada Inteligência do embuste, argumentadores a matar de inveja os sofistas gregos.

O que não fariam com esse material Machado de Assis, Joaquim Manoel de Macedo, Eça de Queiroz, Lima Barreto, O Barão de Itararé, Bocage, Gregório de Matos e outros do mesmo espírito?

Posto que num romance de costumes sujos, nada como a lente de um gênio a lavar a alma dos roubados.

Mas eu dizia que os personagens precisam merecer destaque na sujeira. Veja um deles. Promotor de Justiça, responsável por uma “meritória” campanha de furor ético. Chegou à capa de uma revista semanal, das mais famosas. Vestido de mosqueteiro.

Sua luta intensa contra os corruptos o levou ao senado federal. Uma Casa empanzinada de personagens típicos desse romance. Da tribuna, ele apontava o temido dedo. E ai de quem fosse o apontado.

Um dia, o dedo voltou-se. Um corruptor confessa e prova que o ilustre personagem era cria sua. Marionete dos seus interesses sujos. Onde anda o personagem? Nalguma página esquecida do calhamaço. Não basta ser corrupto. Precisava sê-lo combatendo a corrupção.

Ao retomar os rumos das liberdades políticas, o personagem Brasil institucionalizou-se. Nesse quadro de formal democracia, novos partidos ocuparam as páginas.

Um pôs um “P” antes do antigo e heroico nome. Outro trocou o “trabalhismo” por “trabalhadores”. Um terceiro, dissidente, vestiu-se de social-democracia. Cada um com sua farsa. E um rebanho de outros figurantes.

O pior de tudo é que de antagônicos na aparência uniram-se na semelhança. Na mais escandalosa união de oponentes para juntos esconderem a ficção, fazendo-a real de fato.

No panteão dos iguais, hastearam a mesma bandeira. Num mastro chantado no pedestal da fossa. Cuja franja, desencarnada, tremula aspergindo o miasma fedido de uma pátria marrom.

Os leitores desse romance não o reescrevem por preguiça mental. Ou desleixo com a leitura. Ou cansaço de aprender. Ou até, e pior que tudo, por afinidade com os personagens. A síndrome do roubado a identificar-se com o ladrão.

É com essa bandeira, não há outra, que os mesmos pilantras levarão os bocós às ruas novamente. Às ruas ou às páginas? Já que é apenas um romance. De maus costumes. Té mais.

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François Silvestre

Comentários

1 comment

  1. Sueleide Suassuna 16 outubro, 2017 at 09:02

    Depois de alguns dias sem visitar este blog, volto aqui à cata de textos de Chico da Serra.
    Aí me deparo com esse belíssimo texto! Terrivelmente belo. Sim, assumo o oxímoro. O que há de terrificante, há de belo. A escrita de François é assim : Uma carícia que deixa marcas de bofetada!
    Nosso Brasil: Um eterno Macunaíma!
    Cheiro da França,
    Sueleide

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