Crônicas e ArtigosLiteratura

Sete novos autores brasileiros para ler e se divertir

fraga

Por Raphael Montes

O jovem leitor brasileiro prefere ler livros estrangeiros porque os daqui não se comunicam com ele

Listas são sempre complicadas. Em maio deste ano, vi colegas compartilhando uma lista da São Paulo Review of Books com um panorama de autores brasileiros mais importantes da última década. Misteriosamente, nomes como Rubem Fonseca e Patrícia Melo não apareciam, mas alguns sujeitos com dois ou três livros publicados, com pouca repercussão, eram incensados. A situação vive se repetindo: as listas das revistas e sites ditos “cults” — para um público “intelectualizado” — se orgulham da besteira em fazer distinção entre “boa literatura” e aquela literatura popular, que se conecta com um público amplo. Nessa disputa velada, todos saem perdendo: o jovem leitor brasileiro prefere ler livros estrangeiros porque os nacionais não se comunicam com ele e, assim, o mercado da literatura de gênero continua engatinhando no país. No exterior, já ouvi de editores estrangeiros que a literatura brasileira contemporânea é tida como chata, pedante e hermética pelo resto do mundo.

É lamentável o autor que se orgulha de não ser lido, satisfeito em se comunicar apenas com a sua patota. O escritor deve sempre considerar seu leitor (e, com isso, não quero dizer que o escritor deve fazer concessões em seu texto). Sem dúvida, houvesse um Ian McEwan ou uma Elena Ferrante no Brasil, eles seriam desprezados como “literatura menor”, que vende demais para ser bem considerada. Nesta semana, outra lista foi bastante compartilhada: “Dez novos autores brasileiros para ficar de olho”, no site IG. Mais uma vez, não havia entre os novos nomes sequer um autor de policial, de fantasia ou de terror, ainda que, no texto introdutório acerca de autores clássicos, o jornalista mencionasse nomes como Machado de Assis e Jorge Amado — não custa lembrar: autores populares em seu tempo.

De modo algum quero desmerecer os nomes da lista. Estão ali alguns colegas queridos e talentosos, como Tatiana Salem Levy, Bruna Beber e Sheyla Smanioto; mas listas assim fazem parecer que não existe literatura de gênero ou popular no país. Por isso, resolvi propor uma nova lista, não contrária, mas complementar àquela. Além de ficar de olho, garanto que vocês podem conseguir uma leitura prazerosa dos autores abaixo:

Alexandre Fraga é um policial federal carioca com uma extensa carreira, já tendo lançado romances policiais como “Quando os demônios vão ao confessionário” e “Canibal de Copacabana”. Mas foi em “Oeste”, publicado em 2014, que ele atingiu sua excelência: ao mergulhar no universo do jogo do bicho, escreveu um romance surpreendente e com alma brasileira. É “O poderoso chefão” verde e amarelo.

Andrea Nunes é uma promotora de Justiça que atua no combate à corrupção no Recife. Neste ano, publicou o policial “A Corte infiltrada”, mesclando elementos de thriller e de ficção científica para contar a história de um grupo criminoso tentando se infiltrar no Supremo Tribunal Federal para controlar suas decisões judiciais. Querem tema mais atual?

No terreno da aventura, já recomendei aqui dois dos meus favoritos romances brasileiros recentes: “Os invernos da ilha”, de Rodrigo Duarte Garcia, e “Homens elegantes”, de Samir Machado de Machado. Fico realmente indignado com tanto silêncio. Em qualquer outro país, o livro de Rodrigo Duarte estaria nas listas de melhores do ano, indicado aos prêmios e resenhado nos principais jornais. Agora, é esperar que ele escreva o próximo. Já Samir Machado de Machado felizmente irá relançar “Quatro soldados”, seu romance de estreia, pela editora Rocco. Estou ansioso para conferir.

O terreno do terror também vai muito bem, obrigado. Depois de publicar livros em plataformas virtuais e conquistar um fiel público leitor, o autor Cesar Bravo lançou “Ultra Carnem”, composto por quatro histórias macabras que se conectam. Marcos DeBrito, cineasta responsável pelo trash — e interessante — “Condado macabro”, acaba de lançar seu terceiro romance, “O escravo de capela”, com uma história de terror passada no Brasil colonial do final do século XVIII, em um canavial com trabalhadores escravos e muitas lendas nacionais. Por fim, volto a indicar “Larva”, livro de contos de Verena Cavalcante com histórias violentas, narradas em estilo seco. Um livraço — e muito literário, sem dúvida.

 

Publicado em O Globo.

Share:

Comentários

Leave a reply