Sim, eu consegui!

Tácito Costa
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2016 foi bizarro. Tão perturbador que pediram seu fim ainda em setembro. Menos para o blogueiro Aguinaldo Maciel. Para ele, foi um ano comum. Com conquistas pessoais importantes. O Blog Conexão Business se transformou em Portal Conexão Business e ele recebeu a Comenda do Mérito Legislativo.

Estava no parlamento nesse dia porque meu amigo, jornalista e escritor Marlos de Castro, também seria agraciado. Trabalhamos juntos em redações de Natal. Cheguei cedo, mas a cerimônia atrasou em quase uma hora. Fiquei conversando com ele e sua mulher, Tynna de Castro, no hall do palácio. Depois, a jornalista Laura Azevedo juntou-se a nós.

Ao chegarmos, recebemos um livreto de luxo, com programação do evento, discurso do presidente da casa, fotos, pequenas biografias dos homenageados, e textos dos parlamentares sobre as escolhas.

“Na biografia de Aguinaldo sequer o nome é real”, comentou Marlos, sorrindo. “Na verdade, o nome dele é Agnaldo, sem o ‘u’ e o ‘i’. Homenagem do pai a Agnaldo Timóteo, autor de ‘Mamãe estou tão feliz’, canção de sucesso lançada em 1967, ano em que Aguinaldo nasceu”.

A indicação de Aguinaldo partiu do Pastor Isaías, terceiro mandato e quatro processos na justiça. Os dois últimos, a ‘Operação Quéops’, por envolvimento com pirâmide financeira, e a ‘Operação Zebra’, por fraudes no jogo do bicho. Apesar do desgaste devido aos escândalos, o pastor apostou no marketing religioso, que teve como bordão ‘Deus não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos’, e foi reeleito com folga.

“O CEO do grupo de comunicação Conexão Business, Aguinaldo Maciel da Silva, tem pautado sua vida pela ética, trabalho e transparência, prestando relevantes serviços ao Rio Grande do Norte. Trata-se de um homem de bem, vocacionado para dar o melhor de si aos seus semelhantes. Suas intransigentes defesas da propriedade, da família, da moral e dos bons costumes e, acima de tudo, de Deus, fazem-no merecedor desta importante comenda”, dizia trecho da apresentação do deputado.

“O que se fala por aí é que ele e o pastor são sócios na Fundação Irmã Ester e em negócios junto a prefeituras. Pensem numa parceria explosiva essa”, comentou Tynna.

“Esse boato é antigo, pode ser, os dois são amigos, desde o tempo em que integraram a mesma igreja”, complementei.

Com traços físicos que lembram Tony Tornado, Aguinaldo é macunaímico de berço. Criou inúmeras lendas em torno de si. Uma delas é que a mudança de nome ocorreu por recomendação da famosa vidente e numeróloga francesa moradora da rua do Juruá, em Petrópolis, Madame Haydée Chermont. “Foi quem orientou Jorge Ben e Baby Consuelo”, contava.

Mas a justificativa só convencia quem não o conhecia. Aguinaldo queria mesmo é desvincular seu nome do cantor, brega, homossexual e negro.

Não foi de todo perdido o tempo que esperamos a solenidade iniciar. Aproveitamos para resgatar informações acerca da controvertida figura, mimada por parte da inculta sociedade potiguar.

Na época em que o conheceu, Marlos trabalhava como repórter na Rádio Tuiuti, na Ribeira. Depois migrou para o jornal Tribuna da Cidade, do mesmo dono. Os dois veículos funcionavam em um prédio antigo do bairro.

Aguinaldo era casado com uma mulher ciumenta e braba, Maria das Dores, que os parentes tratavam por “Das Dores”. Ela odiava esse nome e se apresentava como “Dora”. O casal tinha uma filha, Mardora, e frequentava a ‘Igreja Empreendedorismo, Prosperidade e Vitória em Cristo’ (IEPV-C), no bairro do Gramoré, onde também residiam.

“Seu primeiro emprego foi como cambista da Paratodos, maior rede de jogo de bicho do estado. Ele me disse que ficava em uma banquinha, na esquina da Seis com a Dois, no Alecrim, com um boné para esconder o rosto quando se aproximava alguém conhecido. Depois vendeu enciclopédia de porta em porta. Quando o conheci, ele trabalhava em uma distribuidora de revistas próxima da rádio”. relembrou Marlos.

“Eu me lembro de Dora. Ela estava sempre pela Ribeira, dando umas incertas, para ver se pegava o marido no flagra. Desconfiava que ele tinha um caso com uma garçonete do restaurante Por do Sol”, disse Laura.

“Falar nisso, por azar estava no dia em que ela armou uma confusão da moléstia no Por do Sol. Foram necessários três estivadores pra segurar a baixinha, que jogou panelas com comida, pratos, talheres, jarras de suco para o alto. Tomou a grelha do churrasqueiro e gritava possessa: ‘Vou assar viva a desgraçada que destruiu meu matrimônio’. A pobre da garçonete correu pra dentro da despensa. Aguinaldo deu uma cambalhota e escafedeu-se por uma janela. Sobrou também pra mim, que tive de ir em casa trocar a roupa suja de caldo de feijão preto”.

“Contaram-me sobre esse barraco. Ele, inclusive, passou vários dias sem aparecer na Ribeira”.

“Isso. Quando o encontrei, bem uma semana depois, perguntei onde tinha aprendido aquele salto estilizado”.

“Com o mestre de capoeira Bernardão, do grupo Cordão de Anjos”, respondeu rindo.

A confusão provocou o fim do casamento, que já não vinha bem. Magoada, Dora espalhou que o conheceu na Boate Nira Drinks, em Neópolis, onde atuava como cafetão. Ele, claro, negou: exercia apenas o cargo de relações públicas do empreendimento comercial, com fins amorosos e maternais.

Expansivo e simpático, Aguinaldo fez amizade com motoristas e repórteres da Tuiuti. A comissão ganha com os impressos não ia bem. Coincidiu que abriu uma vaga de motorista na emissora. Ele deixou a distribuidora e virou motorista da redação.

Em pouco tempo auxiliava na cobertura dos treinos dos times de futebol e nas transmissões dos jogos no Machadão. Um ano depois, com a aposentadoria de um repórter esportivo, assumiu o posto. “Sempre trabalhei com informação e comunicação”, repetia.

“Essa é a gênese da carreira do seu amigo, acompanhei tudo de perto e dou fé”, disse rindo Marlos.

“Meu não, que é isso cara, tá me desconhecendo”, respondi no mesmo tom.

A rádio foi sua escola. Percebeu sua decadência como veículo de notícias e que o futuro da comunicação estava na internet. Criou o Blog Conexão Business, que, no princípio, copiava matérias locais e nacionais dos outros meios de comunicação, sem dar o crédito.

Graças à veia de vendedor e às “cruzetas” (troca de favores, no jargão da imprensa), viabilizou rapidamente o blog, que se tornou um ‘case’ citado por influentes consultores nacionais.

Com a ascensão financeira e social largou a igreja. Dora era um passado distante. Pintou o cabelo, adotou terno, gravata e um grosso cordão de ouro. Comprou um Range Rover e casou-se com uma loura arrivista que trabalhava no comercial da agência de publicidade Dois B, Márcia Queiróz (Marcinha). Assídua no Instagram ganhou o apelido de ‘rainha da selfie’. Essa mania rendeu-lhe micos, como no dia em que estava em um restaurante comendo um caranguejo imenso e o bicho saltou do prato e grudou no rosto dela.

O sucesso do blog o transformou em portal e permitiu investimentos em uma tv e rádio onlines. Com isso, ele se aproximou ainda mais do poder, intensificando o tráfico de influência e negócios com prefeituras. Para evitar problemas, empregou a ex-mulher na Secretaria de Parcerias Públicas e Privadas. Alguns jornalistas do grupo Conexão ganharam cargos comissionados no parlamento, tribunais e repartições governamentais.

“É muito esquisito esse cartaz dele com autoridades e empresários. Mas, estamos em Natal e como diz Pedrinho Mendes ‘ninguém se dá muito mal’, comentou Tynna.

Marcinha Queiróz comandava a AM&Q Eventos, Serviços e Negócios LTDA, especialista em transações com órgãos públicos. A empresa prestava todo e qualquer serviço, desde Assessoria de Imprensa e Relações Públicas, à elaboração de provas para concursos, fornecimento de merenda escolar, quentinhas para presos, medicamentos, cestas básicas, dentaduras, óculos, material de limpeza, de construção, promoção de festas, eventos e serviço funerário completo. Era difícil perder uma licitação.

A ‘linha editorial’ do grupo de comunicação era conservadora, moralista e policialesca. Movimentos sociais, direitos humanos, reforma agrária, feminismo, GLST, Bolsa Família, cotas para negros eram criticados e algumas vezes tratados com deboche.

Inspirado nas famigeradas colunas de ‘pequenas notas, grandes negócios’, comuns em muitos jornais impressos, criou no portal a ‘M&R – Mercado em Rotação’. Com ela, achacava e extorquia recalcitrantes que se negavam a anunciar.

“O estado tem de ser menos paternalista. Precisamos deixar as leis de mercado agirem livremente. Acreditar na meritocracia. Ensinar o povo a pescar. Apostar em PPP’s e garantir segurança jurídica para os investidores é a saída. O Brasil precisa é de mais trabalho. Por isso defendo o fim dos feriados, redução das férias e a jornada de 12 horas diárias de trabalho. O estado mínimo é a solução”, escreveu recentemente.

O slogan dos três veículos de comunicação, ‘Todos os lados e bandas da notícia’, não era levado a sério. As pautas sempre estavam associadas a interesses pessoais ou comerciais da Aguinaldo Maciel & Queiróz LTDA.

Os métodos para arrancar anúncios e patrocínios eram mais radicais do que no tempo do rádio. Começava com a visita do comercial. Algumas vezes o empresário ou governante ficava em dúvida, mas logo mudava de idéia quando começava a publicação de notinhas e reportagens negativas acerca do seu negócio ou administração.

“O prefeito de Flor de Urtiga que o diga. As reportagens sobre as condições sanitárias do matadouro do município só acabaram quando a AM&Q ganhou a licitação para fornecer merenda escolar”, lembrei.

“Esses são métodos antigos e infalíveis, Chateaubriand foi mestre nisso, será que ele leu “Chatô – O rei do Brasil”? comentou Tynna.

“Acho meio difícil, leitura não é bem a praia de Aguinaldo”, respondeu Laura. “Segundo soube, notas e artigos passam por revisão do pessoal mais antigo da redação. Os artigos são escritos, em sua maioria, por Gilson Duarte, que está com ele desde o início. Não sei se vocês lembram, Gilson trabalhou no jornal Ponto Final e depois na tv Genipabu”.

“Lembro sim, é um jornalista experiente, pena que esteja no lugar errado”, comentei.

“A necessidade nos obriga a muita coisa. Não é o caso de Gilson, claro, mas jornalismo tem muito de advocacia. Muitas vezes por dinheiro ou interesses escusos ataca ou defende idéias ou pessoas. O fato, amigos, é que a decadência do jornalismo é notória. Isso me lembra o que li em ‘O livro dos insultos’, de H. L. Mencken, de que ‘aqueles que perseverarem na profissão devem ser uns rapazes estúpidos que não notam o mau cheiro ou sujeitos sem espinha que se habituaram a respirá-lo, e alguns bem ordinários, que gostam do fedor”, comentou Laura.

“As histórias sobre Aguinaldo são escabrosas. Álvaro… Álvaro Rabelo, que hoje é repórter da tv Equatorial, contou-me que deixou o Conexão porque ficou com medo. Certo dia recebeu uma pauta pra colocar um rato morto, entre os pães do supermercado Boas Compras, e em seguida fotografar e fazer reportagem denunciando o descaso com a saúde do consumidor. Isso para obrigar o empresário a anunciar no portal”, disse Marlos.

“Ele também tem ganhado muito dinheiro no período de eleições, com dossiês e pesquisas fajutas, que negocia com grupos políticos em disputa”, reforçou Laura.

“Vocês lembram que ele sumiu, e depois reapareceu, com a história de que estava prospectando negócios na África? Pois bem, o que apurei é que o pastor Isaías mandou sequestrá-lo, para dar-lhe um susto, porque não estava recebendo a comissão de 20% acertada com a Brasibrecht para construção da barragem Seridó. Aguinaldo só estava repassando 10%”.

“O homem é um Pelé”.

“Vamos mudar de assunto que lá vem a peça rara”, disse Tynna.

Num terno preto estiloso, gravata vermelha, gel no cabelo acaju, parecendo o do senador Josué Grieco, cavanhaque e sobrancelhas bem aparadas, acompanhado de Marcinha e da filha Mardora, do primeiro casamento, nos cumprimentou e dirigindo-se a Marlos:

“Devo muito a esse cara aí, foi quem me deu a mão quando comecei no jornalismo”.

“Nada disso Aguinaldo, o mérito é seu. Parabéns pela medalha. Feliz ano novo pra você e família”.

“Obrigado amigo, nem sei se mereço essa honraria. Yes, I did It! Gratidão por tudo, meus queridos confrades. Se o novo ano for bom para vocês será para mim. Paz e prosperidade para nós. E lembrem-se, sempre, Deus está no comando”.

Mal ele deu as costas, sorri e disse: “Não sei o que foi mais de lascar, se o ‘confrades’ ou a frase em inglês, que, tá na cara, ele decorou para citar no discurso de agradecimento”.

E provocando Marlos: “Não sabia dessa estreita parceria entre vocês no passado”.

“Vai te reiar, isso é mais uma fantasia desse picareta”.

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Tácito Costa

Comentários

2 comments

  1. Walder Cedo 24 janeiro, 2017 at 22:07

    Meu caro Tácito, lembro-me do jovem Agnaldo dos tempos que ele usava chapa dentária, depois é que fez implante, mas já mordendo o que podia lamber. Tempos da faculdade de jornalismo Leroy Marlin, quando ele, sabedor do apreço acadêmico por bibliografias extensas – entre os comunicólogo de então, como os de agora, sinal certo de muita sapiência – entregou o TCC com 666 paginas, 69 delas reproduzindo ipsi literis os dois primeiros cantos d’Os Lusíadas, o restante uma lista de títulos da Escola de Frankfurt copiada do Google… Apostou que o orientador só iria olhar a lista e tirou dez com louvor. O título da pesquisa? “O Jornalismo tem pressa”. Grande Agnaldo!

    Do seu penúltimo leitor, Walder Cedo.

  2. François Silvestre
    François Silvestre 27 janeiro, 2017 at 20:10

    Puta que pariu, Tácito. É o segundo texto seu dessa natureza que me deixa de queixo caído. O outro, sobre aquele “amigo” enrabado, e esse agora. Continue…continue. Parabéns.

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