Sobre a escolha de Bob Dylan para o Nobel de Literatura 2016

Tácito Costa
DestaqueLiteratura

Bob Dylan não é um Merval Pereira ou um Paulo Macedo, que integram, respectivamente, a Academia Brasileira de Letras e a Academia Norte-rio-grandense de Letras sem ninguém saber exatamente porque eles estão lá, visto que não possuem méritos literários. Sequer são leitores de literatura.

Então, a escolha de Dylan para o Nobel de Literatura 2016, embora tenha gerado polêmica, por ele ser músico, e ter se notabilizado e ser referência como músico e compositor e não como escritor, provocou discussão, mas existem elementos, sobretudo poéticos, na sua produção musical que justificam a premiação, como observaram diversas pessoas credenciadas que escreveram sobre o assunto.

Se a escolha tivesse recaído sobre qualquer um dos mais cotados para o prêmio este ano (romancistas Philip Roth e Murakami ou o poeta Adonis), não teria havido reação nenhuma.

Ou se o premiado fosse Ngugi wa Thiong, outro nome lembrado, no máximo alguém reclamaria da Academia Sueca ter optado pela enésima vez por um desconhecido. Eu seria o primeiro, não conheço ainda nada do queniano Ngugi.

Se a academia sueca queria repercussão para o Nobel de Literatura deste ano não resta dúvida que conseguiu o objetivo. O barulho foi grande, sobretudo nas redes sociais. Mas a maioria dos textos que li referendaram a premiação.

Eu fiquei muito surpreso inicialmente, mas aceitei de boa a escolha. Principalmente depois de ler textos de pessoas respeitadas enaltecendo a obra de Dylan, que conheço superficialmente.

Agora, não posso deixar de dizer que se estivesse entre os jurados, e além dos escritores que citei acima, outros como Javier Marías, Lobo Antunes e Ismail Kadaré, também lembrados este ano, estivessem concorrendo eu não votaria em Dylan.

Desses todos que citei acima o que conheço melhor é Roth. E seria o meu escolhido. Mas não é porque eu li mais livros dele que o escolheria, mas porque considero-o melhor mesmo.

De qualquer forma é cedo para um juízo mais sereno e categórico sobre a decisão da academia sueca, que ao longo da sua história premiou nomes que caíram em total esquecimento, como Jacinto Benavente, Gerhart Hauptmann ou Giosué Carducci, ou discutíveis, como Churchill, e deixou de fora nomes como Tolstói, Proust, Joyce, Kafka e Borges, para citar só alguns considerados unanimidades literárias.

Uma coisa é ser premiado. Outra bem diferente é a obra resistir ao tempo e continuar sendo lida. O exemplo está no parágrafo acima. Quem danado leu Benavente, Hauptmann ou Carducci?

Agora, pergunte a qualquer leitor mais qualificado se ele leu Tolstói, Proust, Joyce, Kafka e Borges. O cara pode até não ter lido todos, mas com certeza sabe da importância deles para a literatura e um dia poderá lê-los, uma vez que continuam sendo leituras indispensáveis.

Share:
Tácito Costa

Comentários

4 comments

  1. François Silvestre 15 outubro, 2016 at 17:13

    Tácito, se me permite, dois reparos. Primeiro, esse negócio de prêmio Nobel é um negócio. Sem demérito a Bob Dylan ou outras estranhas agraciaturas. Já foi dado, esse prêmio, nas várias atribuições, a coisas ou pessoas sem qualquer sentido. Principalmente na área da ciência. Na de humanidades, não tem sido diferente. Segundo, discordo da inclusão de Paulo Macedo, comparado a Merval Pereira. Paulinho tem uma história de vida humana dedicada à graciosidade. Nunca fez mal a ninguém. Se acariciou militares, nunca dedurou ninguém. Sua Coluna tinha a suavidade da bobagem, sem maledicência ou agressões aos desafetos que ele ignorava. Se eu não fizesse esse reparo, não me perdoaria. Abraço.

  2. fabio di ojuara 15 outubro, 2016 at 20:07

    Eu não sou nenhum crítico literário, sou apenas o artista Fábio di Ojuara, admirador do artista Bob Dylan desde 1975, Dylan para o povo europeu é como luís Gonzaga para o nordeste brasileiro com um diferencial: ele escreveu livros e o povo europeu diferente do nosso tem o costume de ler e admirar poetas… Há muito a academia de letras sueca tinha esse trunfo guardado… Hoje eu vivo dividido entre Europa e Brasil e na Europa em todas as livrarias que eu entro encontro livros de Dylan… e, nao me gabando eu tenho a honra de ter obra dele enviada por ele pra mim…

  3. Evaldo Gomes 15 outubro, 2016 at 22:41

    Dylan, e simplesmente o Maior poeta Pop do Mundo, seus Escritos não precisam ser Livros, pois a vasta obra literária já faz dele
    Um escritor, entre os Nomes Citados, todos merecem sim estar onde estão.. mas o Premio foi dado a ELE, bem merecido…
    – Sua Obra é Perfeita, não é aleatoriamente que Chico Buarque, Zé Ramalho, Zeca Baleiro, Zé Geraldo, Belchior, Fagner, Vital Farias,
    Caetano, é Tantos artistas seguem suas letras, Beatles, Stones… Todos sabem desse valor.. Viva o Bob… Dylan nosso de cada dia..

  4. Luis Sávio Dantas 24 outubro, 2016 at 22:38

    Se as academias daqui servem para premiar a mediocridade que é afinada com a politica dos poderosos, a de cinema(0scar) e a do premio Nobel também, como da mesma forma a onuzinha das nações é uma grande farsante. Dylan não quer ver seu nome envolvido na campanha da senhora da guerra Hylari Clinton. A diferença de Clinton para Trump, é que ela é uma facínora em pele de cordeiro, e Trump um troglodita, só que os trogloditas são mais primários, e por isso oferecem menos perigo. Esses terroristas (premio nobel e mídia enganadora), subestimaram a inteligencia de Dylan e superestimaram sua vaidade. Fora Clinton !

Leave a reply