Sobre “O homem que amava os cachorros”, de Leonardo Padura

Tácito Costa
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“O Homem que amava os cachorros”, do cubano Leonardo Padura, é um livro de ficção, baseado em fatos reais, no caso o assassinato do líder bolchevique Leon Trotski, que prende o leitor do início ao fim.

Como adverte o autor nas primeiras linhas: “Este é um livro de ficção que conta fatos acontecidos. Os personagens tiveram existência real e são apresentados com seus nomes verdadeiros”.

A história é narrada em 2004, portanto, após a queda do Muro de Berlim e ruína do comunismo soviético e se estrutura em três eixos narrativos: A vida do escritor e “veterinário” (um prático, não tinha curso) Iván Cárdenas, morador de Havana; do líder comunista Leon Trotski; e do seu assassino, o espanhol Ramón Mercader. Comum a todos, o amor pelos cães (principalmente, os da raça Borzói – o galgo russo), daí o título do livro.

O pano de fundo desses três eixos são momentos históricos cruciais do século XX: as revoluções cubana e soviética e a guerra civil espanhola. É nesta última que Mercader é recrutado pelos comunistas soviéticos para matar Trotski.

O romance parte do encontro de Ivan com Mercader, em Havana, na década de 1970, que após cumprir pena pelo assassinato de Trotski na Cidade do México refugia-se em Cuba.

Tanto Trotski quanto Mercader foram biografados. O primeiro por Isaac Deutscher, na famosa trilogia “O Profeta Armado”, “O Profeta Desarmado” e “O Profeta Desterrado”, e o segundo por Jorge Semprún em “A segunda morte de Ramón Mercader”. Bibliografias valiosas para Padura construir sua história de terror, violência e fé cega.

O escritor reconstrói o recrutamento e treinamento de Mercader até o desfecho final, quando Trotski é assassinado no exílio do México, em agosto de 1940. Fã e experimentado autor de livros policiais, Padura conduz “O homem que amava os cachorros” como um Thriller.

Ao mesmo tempo, reconstitui um rico painel histórico sobre aqueles anos conturbados, que culmina com o início da II Guerra Mundial. Mas como frisa Frei Betto, na orelha, “mesmo para quem não se interessa pelos fatos históricos subjacentes à narrativa de Padura, seu romance impele o leitor a uma tensão permanente em torno dos preparativos para a realização de um crime de repercussões mundiais”.

É um livro que resgata histórias de um tempo sombrio, de ilusões e utopias traídas e nos leva a refletir sobre até onde pode levar a fé cega em algo. No caso, no comunismo.

Choca a perseguição implacável feita por Stálin a Trotski, que àquela altura, isolado politicamente, não representava perigo aos planos stalinistas, e os expurgos de 1937, quando a velha guarda da revolução bolchevique foi dizimada pelo ditador, de quem Padura traça um perfil paranoico e sanguinário.

Um livro que, apesar de tratar de questões históricas relativamente antigas, se mantém bem atual, ao nos alertar para o perigo que representam as tentações autoritárias e ditatoriais. Sempre há um Stálin à espreita.

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Tácito Costa

Comentários

1 comment

  1. Damião Gomes 27 setembro, 2016 at 10:50

    Já havia decidido ler este livro, mas agora, com esta análise, já vou compra-lo imediatamente.

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