Meu espírito adolescente: sobre os 25 anos de Nevermind

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Kurt Donald Cobain (1967-1994) era voz, guitarra e imagem de uma das bandas mais importantes da história do rock; morte prematura do líder fez Nirvana ficar maior do que era?

Em 1989, o mercado educacional natalense, então dominado por escolas religiosas, passou por uma revolução.

Anunciado como um método sofisticado de ensino, que incluía o uso de material próprio, modernos laboratórios e o laicismo como política oficial, a grife paulista Objetivo logo teve suas salas preenchidas.

No entanto, o maior atrativo recaia sobre a promessa de regenerar jovens vagabundos reprovados nas instituições comandadas por padres e freiras, através de uma famigerada dependência – o perdão para os incautos.

Maurícios, patrícias, surfistas, vaqueiros, metaleiros, maconheiros, lutadores de jiu jitsu e demais filhos desajustados da lower middle class e dos novos ricos envergaram a camisa azul – outra inovação, aliada ao tênis e a calça jeans de escolha individual.

Com isso, diversas tribos se acotovelavam no pátio, durante o intervalo, em uma atmosfera adolescente caótica, competitiva e enriquecedora.

Eu tinha passado o ano anterior no Instituto Sagrada Família, colégio decadente, em formato de presídio, no coração do Alecrim, e chegava acompanhado de quatro amigos, Luís, Rachel, Eduardo e Elízia.

Os cinco eram forasteiros provenientes de Estados distantes, o que reduzia a possibilidade de interação com parte dos filhotes do conservadorismo local.

A turma dos desgrenhados, sempre a mais interessante, era nosso destino.

Tínhamos, em média, 13, 14 anos de idade, e a curiosidade era uma constante.

A música era fundamental nessa divisão de classes.

Ainda que, de vez em quando, a escassez de vida noturna em Natal aproximasse as tribos, o som que ouvíamos era determinante na definição da galera – pelo menos a que convivi até a fase adulta.

E por incrível que pareça, ódios congênitos não estouravam entre estilos opostos, mas, sim, entre os similares, feito irmãos inimigos que, de tanto se conhecerem, nutrem o mais mortal dos desamores.

Era assim a intriga entre punks e headbangers.

Se aqueles eram menos numerosos, porém mais rebeldes, chamativos, estes, figuravam em qualquer escola, verdadeiro pavor com aqueles cabelos compridos, camisetas pretas e discos com capas demoníacas debaixo do braço.

Brigas entre as facções alimentavam a fama barra pesada e desordeira que possuíam.

O futuro tratou de confirmar que nem tudo era brincadeira naquele conflito, com dois suicídios, nos anos subsequentes – bufamos aliviados com singelos socos e pontapés (e ligeiras prisões) que alguns dos mais próximos trocaram.

Ou o sujeito era do underground, o que queria dizer: quanto mais sujo, liso, irado, melhor; ou era playboy, burguês.

Foi nessa ambivalência comportamental que o fenômeno grunge apareceu para chacoalhar as estruturas separatistas em que vivíamos.

Sobretudo o Nirvana e seu apelo visual-auditivo que parecia impossível.

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Nem punk, nem metal, Nirvana chocou meio mundo com aquela raiva sincera, juvenil, sem evocar demônios e usar mascotes cuspidores de fogo no palco

No tempo da fita

Já em 1991, meu núcleo de amigos era metaleiro e também fã de hard rock dos 70s, o que excluía qualquer contato com música punk – tida como mal tocada, besta, datada.

Precisou de outro forasteiro, o publicitário Renato Quaresma, para o antagonismo chegar ao fim, com uma fita cassete trazida por ele de São Paulo.

Percebi que tinha algo inquietante naquela fita.

O acorde seco de Smells Like Teen Spirit, com a explosão do refrão, era algo inexplicável (e viciante).

Em pouco tempo, o limbo entre mainstream e alternativo, punk e heavy metal, eles e nós outros, foi superado, e a alcunha de traidor do movimento, extinta.

Foram dias com a sensação de que vivia algo histórico.

Não sei se a geração atual foi marcada por outro disco tanto quanto Nevermind marcou a minha.

Talvez, hoje, fora do contexto, o Nirvana ganhe novo enquadramento no panteão dos deuses do rock – creio concordar com a alegada inexpressividade dos outros álbuns da banda.

Mas ao ouvi-lo novamente, enquanto escrevia este texto, senti a mesma inquietação de 25 anos atrás – Nevermind foi lançado em setembro de 1991.

E também concordo que o talento maior segurava as baquetas, antes que algum fã do Foo Fighters faça questão de lembrar.

Como se cada riff ou grito de Cobain tivesse virado uma cicatriz indelével, carregada de dores, segredos e omissões.

O fato de ser mais um membro do Clube dos 27, deificado de forma rápida e mortal pela mídia; o conflito das novas tecnologias e as grandes gravadoras; e as incertezas que nos assolam na puberdade foram sonorizadas por aqueles três garotos de Seattle, de forma que ressoaram nos quatro cantos do mundo.

As 25 milhões de cópias vendidas, os diversos prêmios conquistados, a influência e o declínio da cena grunge após o suicídio de Cobain, são marcos inquestionáveis.

A revolução aventada sucumbiu à dependência química do galego magrela.

Ficou a certeza de que, estilos, classes, tribos à parte, um momento único, irresponsável, libidinoso, como o espírito adolescente, foi vivido com intensidade, como raras vezes observado de uns tempos para cá.

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