Sobre os 5 diretores indicados ao Oscar

Gustavo Bittencourt
AudiovisualColunistas

Uma das categorias mais importantes do Oscar, a de melhor diretor requer cuidado dobrado na hora da observação sobre a mística de ‘cinema de autor’; duelo de titãs entre Mel Gibson, Damien Chazelle, Kenneth Lonergan, Denis Villeneuve e Barry Jenkins

Se música, literatura e pintura são expressões artísticas mais independentes da tecnologia, o cinema é um esforço coletivo de vários profissionais. Daí a dificuldade de qualquer seleção.

Por ser um tratado entre muitos profissionais, então, como se avalia o mérito de um diretor de cinema?

Por esses e outros aspectos, a noção de autoria torna-se problemática, embora consolidada pela crítica, mercado e reconhecimento do público.

Neste ano são nove os indicados a Melhor Filme – de uma ótima safra, por sinal. É a categoria que resume a glória do evento e garante sobrevida mercadológica, mesmo depois do Oscar.

Já os cinco candidatos ao prêmio de diretor são autores que merecem um olhar mais atento, sobretudo, para realizações anteriores.

Mel Gibson, o retorno à direção do cristão endiabrado

Mel Gibson é candidato por Até o Último Homem. Carismático e competente na direção de filmes, ele tem uma vida cotidiana problemática. Beberrão, violento e preconceituoso, foi rechaçado publicamente nos últimos anos por declarações estúpidas e comportamento errático.

O que nos leva à discussão distintiva entre obra e criador. No cinema são vários casos semelhantes. Nomes, como Woody Allen e Roman Polanski, vêm à lembrança rápida envolvendo violência e escândalos sexuais.

Polêmicas à parte, Mel Gibson foi consagrado em premiação anterior, pela direção de Coração Valente (1996) – levando melhor filme e prêmios técnicos.

As cenas de batalhas de Até o Último Homem, cujo título original (Hacksaw Ridge), remete a um espaço geográfico onde acontece o combate, mostram o inferno da guerra, corpos dilacerados, queimados, cortados ao meio.

O horror é superado pela convicção humanista do soldado que contraria sua unidade militar e gera suspeitas generalizadas sobre seu caráter pela recusa em atirar e matar – aspecto presente no primeiro e mais sensível filme do diretor, O Homem sem Face (1993).

Gibson cativa o público com uma impressionante narrativa biográfica inspirada na vida do soldado de primeiros socorros Desmond Doss, herói da II Guerra Mundial.

Hacksaw Ridge não desperta discussão moral ou complexa, como nos filmes de Clint Eastwood, A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, lançados juntos em 2006.

Em Até o Último Homem, salta um maniqueísmo de viés humanista e edificante, impressionante como força narrativa. Sobretudo por ser uma história verídica, forjada pela coragem épica e altruísmo dos filmes de Mel Gibson.

Damien Chazelle e o jazz como diretriz

Antes de optar pelo cinema, Damien Chazelle era músico, característica fundamental na criação de seus filmes, Whiplash e La La Land.

Suas narrativas tem forca motriz no ritmo do jazz e na dedicação que o gênero exige de músicos e ouvintes.

Cantando Estações, subtítulo de La La Land, é arquitetado e tomado pela musicalidade como convenção de gênero. Enquanto que a trajetória de Em Busca da Perfeição, subtítulo de Whiplash, é definida no título, com as várias conotações que a palavra alcança nos contornos da música.

Whiplash refere-se, dentre outras coisas, à chicotada que o pupilo leva do mestre no estímulo tortuoso e torturante para buscar o melhor de si, além do título ser uma música famosa de jazz, trilha incidental e tema do filme.

Assim como parte da gramática musical do jazz, a linguagem cinematográfica de Chazelle é usada com cadência e variação, em seus rápidos e criativos movimentos de câmera que emulam o ritmo da música destacada por suas invencionices espontâneas, apesar de muito estudo.

Para quem se surpreendeu com seus dois filmes, repletos de virtuose, ficará na torcida pelo diretor que ainda é muito jovem, hoje com 32 anos, mesmo que não se consagre vencedor. O fato é que Chazelle não tardará a surpreender com encantos e desencantos estimulados pelo tom jazzístico em seus filmes.

Kenneth Lonergan, dramaturgia de cacos narrativos

Cineasta bissexto, Kenneth Lonergan dirigiu apenas três filmes: o indicado ao Oscar Manchester à Beira-Mar, Margaret, lançado em 2011, mas filmado em 2005 e Conte Comigo (2000).

Iniciado no teatro, e autor de várias peças, é também roteirista de filmes bem sucedidos, como a comédia protagonizada por Robert De Niro e Billy Cristal, Máfia no Divã (1999), dirigido por Harold Ramis, e Gangues de Nova York (2002), de Martin Scorsese.

Como diretor de cinema sua proposta autoral é percebida na temática trágica e estilo modesto. Suas narrativas tratam da responsabilidade de viver na superação de tragédias pessoais, quando estas possuem fortes consequências nos personagens.

Há ligação na abordagem circunstancial de seus últimos filmes, Margaret e Manchester à Beira-Mar. Em comum, a dor para superar perdas é também uma forma de autopunição. Inexiste ato que deixe de reivindicar consequências nefastas.

Em Margaret, a protagonista vivida por Anna Paquin sobrevive à experiência traumática de um ato de responsabilidade indireta. Seus traumas pessoais ecoam pesadelos psicossociais da Nova York pós 11 de setembro, como sinais de um atordoamento moral.

Ao passo que o personagem de Casey Affleck (forte candidato ao prêmio de melhor ator) em Manchester à Beira-Mar, na postura desinteressada, lacônica e passiva, com contrapartida irascível, é sintoma de um luto interminável.

Kenneth Lonergan dirige pelo estilo definido na encenação sóbria, de parcos recursos dramatúrgicos, com relatos mundanos, apesar de trágicos. Alcança profundidade emocional que dificulta concessões aos clichês do melodrama.

Pois em suas narrativas os personagens não superam desgraças, mas aprendem a sobreviver de forma despedaçada.

Barry Jenkins, discrição e sensibilidade na direção

O americano Barry Jenkins traz em seu segundo longa metragem, Moonlight- Sob a Luz do Luar, um candidato promissor ao maior prêmio em 2017. Para parte da crítica é o único filme que pode tirar a estatueta do favorito La La Land no domingo de carnaval.

Moonlight tem data de lançamento comercial em 23 de fevereiro e Medicine for Melancholy, não foi lançado no país.

Para quem não é adepto da cultura download, pode assistir no Youtube o filme publicitário feito para a rede Bloomingdale’s, Tall Enough, e prestar atenção na sensibilidade e bom gosto do diretor para tratar de questões raciais e amorosas.

Na mesma toada, com elegância para tratar temas difíceis, Barry Jenkins apresenta em Moonlight uma narrativa de formação. De infância problemática, por causa da mãe viciada e o bullying na escola, sofre ainda pela dificuldade na compreensão dos sentimentos.

Negro, pobre e gay, o jovem ‘pequeno’, apelido do personagem Chiron, encontra amparo afetivo no traficante gentil e sua esposa, figuras decisivas na vida do protagonista, vivido por três atores em fases distintas de amadurecimento.

Moonlight é delicado e poético ao tratar de temas fortes. Embora gere a suspeita de congraçamento para o grande público na abordagem amena. Vista também como possibilidade de sensibilizar pessoas cada vez mais fechadas em suas bolhas de opiniões preconceituosas.

Mesmo com a técnica de fácil persuasão, nesta proposta de discutir temas sérios de forma leve, Sob a Luz do Luar, engrandece. Introspectivo e sensível abraça mais de uma causa, expondo preconceito numa declaração silenciosa, com ternura.

Denis Villeneuve, um estranho adaptado ao ninho

A importação de talentos feita por Hollywood é comum desde sua constituição como sistema de produção. Nem sempre os estrangeiros são bem sucedidos nessa transição.

Canadense, natural de Québec, Villeneuve já possuía três longas metragens em seu currículo antes de despontar no mercado internacional com o inigualável drama Incêndios (2010).

Prolífico, desde que estreou na produção hollywoodiana com Os Suspeitos (2013), faz média de um filme por ano e entrega produtos finalizados para o grande público sem perder a capacidade de distinção nos mais diferentes gêneros.

Revelado seu talento para ficção científica de viés reflexivo e conceitual em A Chegada, concorrente ao Oscar em outras categorias, já é de sua autoria a esperada continuação do clássico do britânico Ridley Scott na década de 1980.  Blade Runner2049 tem lançamento marcado para outubro de 2017.

Sugestão para o leitor que desconhece o trabalho de Villeneuve. Veja todos os filmes produzidos em Hollywood, de cima para baixo. A começar pelo candidato A Chegada, passando por Sicario: Terra de Ninguém, até chegar a Incêndios.

O impacto de suas narrativas fará com que o espectador perceba seu nome como o mais talentoso no mercado.

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Gustavo Bittencourt

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