Sobre um filme e livros

Tácito Costa
Artes VisuaisDestaque

Do natal para cá, período que coincidiu com umas férias parciais, em janeiro, assisti vários filmes e também retornei à leitura de ficção, contos, com mais ânimo. Contos porque os últimos romances que tentei ler não me agradaram. Acabei deixando-os pela metade com exceção de “A idade do ferro” (edição portuguesa, acho que não tem tradução no Brasil), de J. M. Coetzee.

Como sempre, não existe nada orgânico nestas viagens pelos livros e filmes. Tipo, vou ler agora somente tal escritor ou assistir filmes de tal diretor. Pulo de um autor brasileiro para um europeu, asiático, africano… A anarquia é a regra nessas viagens. Sempre foi assim e assim será. A essa altura não tem mais como mudar.

Se com os romances eu não tenho tido sorte, com os filmes posso dizer o contrário. À exceção de um, que não aguentei ver até o final porque achei chato, o premiado “Magonia”, produção européia dirigida por Ineke Smits, todos os demais muito bons e alguns estão naquela seleção que publiquei aqui no mês passado. Pois é, às vezes a obra vem referendada por premiações e críticas importantes, mas… não convence.

Contudo, somente um, e não apenas entre esses vistos recentemente, mas nos últimos anos, me provocou uma emoção muito forte. Chama-se “O rei das máscaras”, produção chinesa, dirigida por Tian-Ming Wu. O filme é de 1996 e eu baixei na Internet. O que me deixou perplexo foi como eu, que acompanho de perto os lançamentos, sobretudo os referendados por festivais e críticas, passei batido nesse.

“O rei das máscaras” (“Bian Lian”) conta a história de Wang, mestre chinês da arte milenar Bian Lian (antiga arte dramática chinesa em que os atores trocam de máscara rapidamente durante as apresentações), que lamenta não ter um filho para o qual poderia passar adiante seus conhecimentos. O velho artista mora em uma sampana em companhia de “general”, macaco de estimação, e apresenta-se pelas ruas. A mulher o deixou há muitos anos e ele perdeu um filho quando este tinha 10 anos.

Numa dessas apresentações conhece um famoso artista de ópera, que o convida para fazer parte de sua companhia, mas ele prefere continuar como artista de rua. Aceita, contudo, o conselho para adotar uma criança e assim não deixar morrer a Bian Lian.

O velho Wang compra uma criança de família pobre para transformar em seu herdeiro. Após um curto período de convivência, o mestre descobre que a criança é uma menina. E pela tradição, a Bian Lina só pode ser transmitida a um menino. Ao descobrir que tinha sido lesado pelo pai da garotinha abandona-a. Mas aí já estava estabelecida uma relação afetiva, sobretudo por parte da criança, que fará de tudo para retornar para Wang, a quem ela chama de avô.

Uma obra exuberante visualmente, com roteiro seguro, contando uma história comovente e inspiradora, que discute a condição subalterna da mulher na sociedade chinesa, questões relativas à arte e à vida. Um tiquinho de melodrama e aventuras, vá lá, mas nada que empane o resultado final. Fiquei encantado como há muito não ficava com um filme.

Curioso, quase não há nada sobre esse filme na Internet, fiquei com a impressão de que não obteve muita repercussão no Brasil, embora tenha ganhado muitos prêmios internacionais. Até para conseguir boas fotos para ilustrar o texto tive dificuldade.

Mais informações sobre a Bian Lian

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Tácito Costa

Comentários

3 comments

  1. RITA VIEIRA - jornalista 20 fevereiro, 2018 at 14:48

    Meu filho do coração TÁCITO COSTA, parabéns pela sua forma de escrever. Acho vc um gênio. Um beijão desta velha jornalista daqui do Rio, filha de potyguares.
    Ave, Tácito!
    Ave, Substantivo|Plural!
    Ave, filme e livros!!!

  2. ITAMAR E SONIA 20 fevereiro, 2018 at 21:28

    RITA JORNALISTA, VOCÊ TEM TODA RAZÃO. QUEM SUSTENTA A CULTURA NO RN SÃO PESSOAS COMO TÁCITO E A EQUIPE DO SUBSTANTIVO-PLURAL . MÉRITOS PARA QUEM MERECE, NÃO É MESMO???
    BEIJOS

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