“Sons, palavras, são navalhas”

Tácito Costa
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O ambulante de CDs piratas e Pen Drives com seleção das “melhores músicas”, passa apressado no seu carrinho de som pela rua Vigário Bartolomeu. Dá pra ouvir de longe a música executada, “Galos, Noites e Quintais”, de Belchior.

Eu cruzo com ele de carro. Se estivesse a pé o teria parado e perguntado se vendeu muitos CDs e Pen Drives do cantor e compositor cearense. Imagino que sim. Esse tipo de ambulante é raro eu avistar pelo centro. Os de picolés de Caicó e cavaco chinês também.

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Belchior conseguiu algo que não é tão comum assim no meio cultural. Uma obra reconhecida por intelectuais e pelo povo. A comoção nas redes sociais deu a dimensão disso. Acredito que seja o sonho de todo artista. Ter o seu trabalho reconhecido pela crítica e pelo público. Nem sempre isso acontece, claro. Às vezes é incensado pelos críticos e um ilustre desconhecido. Noutras, faz enorme sucesso e não conta com respaldo dos críticos.

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Não deixa de ser curiosa essa popularidade de Belchior porque uma grande parte das suas músicas tem sofisticação filosófica e literária raras na MPB. Arrisco dizer que ninguém levou isso tão longe quanto ele. Ao mesmo tempo tratava de temas como o amor, a solidão, os costumes.

Eu poderia citar vários versos que apontam nessa direção. Mas vou me limitar ao trecho de uma música que gosto muito, “Alucinação”, de 1976, que está no segundo álbum de estúdio do cantor: “a minha alucinação é suportar o dia-a-dia, e o meu delírio é experiência com coisas reais”.

Em alguns raros momentos da minha vida fui o homem certo no lugar e na hora certos. Em outros, que são maioria, estava no lugar e na hora errados. E, claro, paguei um preço por isso.

Durante algum tempo da década de 1990 eu estive no lugar certo. Na Assessoria de Imprensa da Fundação José Augusto. Peguei uma fase boa da instituição, como o auge do Projeto Seis e Meia, que trouxe a Natal grandes nomes da MPB.

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Entre eles, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. E eu estava na apresentação dele no Teatro Alberto Maranhão. Teatro lotado, acho que nesse dia ocorreram duas sessões, não tenho certeza.

Agora, enquanto escrevo estou ouvindo ele no Youtube. E não tenho como não dar razão a Caetano, que em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo disse que as “canções de Belchior não são das que morrem”.

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Tácito Costa

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