Sugestões de leitura

Manoel Onofre Jr.
DestaqueLiteratura

O ANJO DEVASSO, de Antonio Stélio ( Natal: Sebo Vermelho Edições, 2016).

Biografia romanceada de Juvenal Antunes (1883- 1941), poeta, cuja glória se divide por dois Estados: Rio Grande do Norte, onde nasceu e se criou, e Acre, onde viveu a maior parte da sua vida. Foi no Acre que ele se consagrou como poeta, autor do livro ”Acreanas”. Figura humana incrível, boêmio, Promotor Público nas horas vagas…

Antonio Stélio, jornalista acreano residindo atualmente em Natal, conta a sua história através de depoimentos de pessoas que conviveram com o poeta, depoimentos, estes, expressos, com muita criatividade, em linguagem ficcional, porém fiéis à verdade dos fatos. Juvenal Antunes ressurge cheio de vida nas páginas desse livro. De tal modo, aliás, que, terminada a leitura, a gente tem a vaga impressão de que o conheceu pessoalmente.

Uma cronologia e fotografias, no final da obra, documentam acontecimentos e figuras relevantes na vida do irrequieto e transgressor Juvenal.

De lamentar, apenas, alguns erros de revisão, coisa fácil de sanar numa segunda edição, que , com certeza, há de vir.

 

MARCORÉ, de Antonio Olavo Pereira ( Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957).

A vida trocada em miúdos: pequenos-grandes dramas no dia-a-dia de uma família classe média, agravados com a chegada de um filho temporão. É nisto que se poderia resumir o conteúdo desse romance, relido há pouco. Obra de altos méritos, porém, injustamente esquecida.

Uma frase do narrador parece sintetizar tudo que o autor quis dizer: “Não estávamos tão livres assim, nem consigo admitir que jamais tenha existido alguém inteiramente livre.”

Quanto à forma, é perceptível a influência do Romance de 30, todavia sem qualquer traço regionalista. Alguns estudiosos encontraram na linguagem e no estilo, pontos de afinidade com Graciliano Ramos.

 

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MACHADO QUE EU LI, de Ivan Maciel de Andrade ( Natal: Caravela Selo Cultural, 2018).

Reunindo crônicas e artigos publicados no jornal Tribuna do Norte, de Natal, esse livro compõe um retrato de Machado de Assis, o maior ficcionista brasileiro.

Leitura agradável, prazerosa. Ivan Maciel de Andrade escreve bem; o seu estilo e a linguagem de que se utiliza, clareiam o texto, tornando-o acessível, todavia sem concessões ao gosto do público ledor mediano.

Grande admirador de Machado, o veterano autor faz revelações sobre a vida e a obra do seu ícone, abordando questões instigantes: O contista é maior do que o romancista? Bentinho foi traído por Capitu? ( personagens do romance Dom Casmurro). Machado escondia suas origens? Isto e muito mais.

Inúmeros machadólogos de renome – Augusto Meyer, Lúcia Miguel Pereira, Roberto Schwartz, Raymundo Faoro, John Gledson, etc . – são citados e comentados, criteriosamente.

Erros de revisão, não muitos, e algumas repetições ( explicáveis pelo fato de tratar-se de uma reunião de escritos avulsos) não comprometem a obra. O último artigo, no entanto, por demais repetitivo, poderia ser descartado.

Sem fugir ao chavão, não se pode deixar de dizer que esse livro vem enriquecer a bibliografia sobre o Bruxo de Cosme Velho.

 

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CIDADE NOVA- 50 ANOS DE BAIRRO, de Thiago Gonzaga (Natal: Sebo Vermelho Edições, 2018).

O poeta romântico Casimiro de Abreu, em “Minha Terra”, versejou: “Todos cantam sua terra/ Também vou cantar a minha/ Nas débeis cordas da lira/ Hei de fazê-la rainha”.

Parece-me que o conceito de terra, a que se refere o poeta, pode ser entendido como sendo o de um país, de um estado federativo, de uma cidade e até de um bairro.

Em “Cidade Nova – 50 Anos de Bairro”, Thiago Gonzaga revela fatos e personagens do bairro onde nasceu e se criou, na periferia de Natal.
Compõe o livro uma súmula histórica acrescida de vários documentos – recortes de jornal, entrevista com o autor, transcrita do diário Tribuna do Norte, e um poema de Myriam Coeli.

Trata-se de uma contribuição valiosa para a historiografia da Cidade dos Reis Magos.

Dos bairros de Natal, apenas dois haviam sido objeto de estudo em livro: Alecrim e Petrópolis. Agora, com o lançamento de “Cidade Nova …” é provável que outros recantos da urbe venham a merecer um olhar investigativo de historiadores e cronistas.

Cidade Nova foi por muito tempo considerado uma favela. Antigo lugar do forno do lixo, hoje em dia já não é mais um simples subúrbio ; desenvolve-se, urbanizado, integrando-se à vida de Natal, embora ainda carente de muita coisa.

 

SEMPRE SERÁS LEMBRADA, de Josué Montello (Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1999).

Josué Montello é o Érico Veríssimo do Maranhão (São Luís e Alcântara ). Refiro-me ao Érico Veríssimo da primeira fase. É com esta impressão que termino a leitura do romance “Sempre Serás Lembrada”, derradeira obra ficcional de Montello.

O estilo claro e fluente; o jeito inconfundível de narrar; a trama sugestiva, de fácil compreensão; o realismo sem novidades; a presença encantadora da cidade de São Luís como pano de fundo para a ação romanesca – tudo convida à leitura. Mas, alguns pontos vulneráveis ficam à mostra, por exemplo: a pouca densidade psicológica na caracterização dos personagens, o que se evidencia, inclusive, nos diálogos construídos em linguagem como que estereotipada, com a mesma e invariável marca pessoal do autor.

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INVENTÁRIO DO POSSÍVEL, de Tarcísio Gurgel (Mossoró: Editora Sarau das Letras/ Natal; EDUFRN, 2015).

Contista e ensaísta, o autor incursiona com desenvoltura pelos domínios da memorialística, evocando o seu tempo de menino e adolescente em Mossoró. E traça um comovente retrato de família , onde se destaca a figura do pai, Seu Juvenal.

Obra que nasce fadada a tornar-se um clássico do gênero, digna de figurar ao lado de “Viva Getúlio”, de Francisco Fausto, “Oiteiro”, de Madalena Antunes, “A Vida em Clave de Dó”, de Zenaide Almeida Costa, “Perdão”, de Francisco Rodrigues da Costa e outras culminâncias da memorialística potiguar.

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Manoel Onofre Jr.

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