Geral

Um bom exemplo

jajajaja

Mossoró é uma das cidades heroicas do Brasil. É perceptível o sentimento popular do épico, do legítimo orgulho do seu passado. São muitas as manifestações.

Noventa anos depois da morte do cangaceiro Jararaca, a cidade promove o seu julgamento. Um júri composto por personalidades de diversas áreas, presidido pelo juiz Breno Fausto de Medeiros. Na defesa está o nobre e lúcido advogado Honório Medeiros. Não hesitei em aceitar o convite feito pelo amigo e companheiro de academia, Benedito Vasconcelos, para fazer a acusação. Não seria fácil, já sabia, porque o famoso bandido de confiança de Lampião havia virado santo, atribuíam-lhe milagres, dedicavam-lhe flores e velas. O seu túmulo é visitado, velado por “devotos”.

Penso que a bíblia já havia previsto o surgimento de gente dessa espécie: “E ele será homem feroz, e a sua mão será contra todos e a mão de todos contra ele” (Gênesis 16:17). Foi o que aconteceu na frustrada invasão de Lampião a Mossoró. A ferocidade dos seus homens foi banida.

José Leite de Santana mereceu o apelido de Jararaca por sua natureza peçonhenta e mórbida. Acredito mais que ele nasceu em Buíque, Pernambuco, e não em Pajeú das Flores. Certamente, ele não era flor que se cheire. O seu nome de batismo é inadequado. O leite de Santana amamentou Nossa Senhora. Não deveria servir para um facínora dessa espécie. Na verdade, segundo o insuspeito Câmara Cascudo, assaltava fazendas, incendiava, matava e depredava.

Muito antes dele, Jesuíno Brilhante, nascido em Patu (1870), disputa com o baiano Lucas Evangelista a primazia da inauguração do cangaceirismo nordestino. A diferença é que Jesuíno era um gentleman, um verdadeiro Robin Hood. Muitos disseram que ele tomava dos muito ricos para distribuir com a pobreza, tentava fazer justiça num País de grande injustiça social. O povo, muitas vezes, transfere as qualidades de um para outro cangaceiro. Filmes, livros e estudos universitários celebram o heroísmo, a coragem e os (mal)feitos dos cangaceiros. Filmes como: “Jesuíno Brilhante”, “O Cangaceiro”, de Lima Barreto, “Deus e o Diabo em Terra do Sol”, de Glauber Rocha, são exemplos marcantes.

Conto um episódio curioso. Fui honrado, na Universidade de Bonn, com um convite para proferir uma palestra sobre a educação superior do Brasil. Houve tradução simultânea. Um reitor alemão perguntou-me se eu sabia que Lampião era tese de doutorado que estaria sendo defendida na Universidade de São Paulo. Respondi não ter notícia, mas fiz uma graça. Afirmei que Lampião resistiu à agressividade da terra e à polícia de cinco Estados nordestinos, mas não acreditava que ele conseguisse resistir a uma tese doutoral de um estudante da Universidade de São Paulo.

Mossoró dá exemplo de civismo ao País, lembrando a valentia do seu povo, a capacidade de resistência, o amor à liberdade e à sabedoria dos estudos. Por essas razões, espero ver um dia uma praça em louvor do Livro. Porque Mossoró é cidade Livre do Brasil!

Share:
Diógenes da Cunha Lima

Comentários

Leave a reply