Geral

Vagamundo

frida

Para experimentar o alívio da dor lancinante na fronte e por trás da nuca são necessários a aspirina e o descanso. Assim como entender que para que os acordes despertem os mais doces sentimentos ouvidos adentro, seria necessário antes o exercício das cordas paradas, o piano fechado, os olhos miúdos pela paz do silêncio. Por isso, até hoje, silencio quando um bem-te-vi gorjeia pedindo passagem para um bom dia de verão. Mesmo que esse dia seja mais um entre tantos outros nessa travessia pelo deserto.

Para que a curiosidade se descortine em descoberta, a dúvida chegou primeiro. Antes das nuvens desenharem respostas no céu, o vasto e ininterrupto azul se recusa a dar explicações. A ciência não salva o homem da imagem no espelho. A imensidão de homens traz coragem de seguir adiante ou revela o abandono e a solidão. Sozinho é estar em um lugar dentro da alma. Só é uma condição passageira.

Moram nessas linhas decaídos certas estrofes que me pertencem e que jamais me libertarão dessa coisa que alguns dão nomes. Angústia. Solidão. Desânimo. Melancolia. Cansaço. Pedaços. Sede. Abismo.

Sou a ausência de nomes. Me valho da leitura dessa terra seca para redescobrir o pesadelo dos índios. Durmo o sono despedaçado dos abismos da noite. Tenho curiosidade pelo que já passou. Sou artífice de uma ciência que não tem espelho. (Só dúvidas). Não sou eu mesma nem aos olhos do outro. Nômade na minha própria casa. Esse deserto que me atravessa.

No fim do dia sobram-me alguns suspiros. As migalhas das buzinas, os gritos das máquinas e os ruídos da pequena revolução cotidiana ficam para trás. Vão para um canto qualquer de página.

No fim do dia transpiro pensamentos e absorvo lembranças. Deixo que Borges me conte as ilíadas que eu não estava lá e Akhmátova me ensine a vibrar as cortinas vermelhas do amor que ela desaprendeu. E assim, o súbito descontentamento é substituído pela sensação de que a derrota do dia grava dignidade nos atos, que só os dias diluídos nos anos serão capazes de revelar. O tempo é bom para desaprender; abrir ciclos; redescobrir substâncias. O tempo é bom para modificar o olhar. Quando a gente consegue desabotoar a noite, com todas aquelas estrelas, que não passam de botões na enorme lona parda que esconde a aurora.

Bonita é a vida. Talvez porque não só vida, nela também habita a morte. Bonita e honesta. Nada escapa, nada está imune à irrepreensível pureza da morte. Essa verdade que nos sonda e nos expia da culpa que vai desbotando à medida em que nos revestimos da poeira, desse incerto deserto que é o futuro.

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Sheyla Azevedo

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