ENTREVISTA: Veronica Botelho e as meias verdades

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Semana de muitos lançamentos literários em Natal, um deles de nossa colaboradora Veronica Botelho. Amanhã (15) à noite, a partir das 18h30, ela recebe convidados e curiosos na Livraria Saraiva, para mostrar seu Meias Verdades, seleção de oito crônicas com temas distintos, como racismo e triangulo amoroso. A seguir, você confere uma entrevista com a autora residente na Toscana, bem pertinho de Florença (ITA).

bibliotecaAté que ponto a realidade virtual, nosso ‘tempo-presente’, com hiperoferta de dados, imagens e opiniões, pode diluir verdadeiras impressões para emprestar perspectivas alheias?

Não me atreveria em falar de perspectivas alheias. Acho que poderíamos falar que as nossas próprias perspectivas mudam a cada segundo. Por exemplo, eu já não sou a mesma pessoa que começou essa frase, porque a tua pergunta atingiu uma parte de mim que ainda não conhecia. Vamos construindo o nosso Eu e o nosso imaginário coletivo, de acordo com o que vamos vivendo, sentindo e percebendo, e tudo em sintonia com o ambiente onde vivemos. As pessoas que conhecemos ao longo de nossas vidas são parte ativa desse processo, cada pessoa que cruza o nosso caminho, nos ajuda a descobrir uma parte desconhecida em nós. Fujo quando escuto frases como: “Sempre fiz assim e não vou mudar”, “Eu sou assim e não mudo”. No momento que pegamos ‘emprestado’ perspectivas alheias, significa que já são nossas. Até mesmo o fato de ‘pegar emprestado’ alguma coisa que não nos pertence poderia significar que achamos mais fácil aceitar o ponto de vista de alguém que pensa como nós do que refletir.

Acredita que essa influência externa em nossas ideias, desejos e anseios está maior?

A verdade é que vivemos em uma sociedade e nos identificamos com o ambiente onde crescemos, que condicionou nosso imaginário coletivo. É ilusório achar que poderíamos viver sem ser influenciados pelo nosso entorno, sem ser influenciados pelas perspectivas aparentemente ‘alheias’. Hoje na ciência se discute a verdadeira existência de pensamentos próprios, pois já foi demonstrado que graças aos neurônios-espelhos, nos ‘copiamos’. Pessoalmente eu acho positivo ser influenciado por outras ideias e perspectivas. Acho que é a maneira de poder aprender sempre mais. O único perigo é que a tendência humana é de procurar argumentos que confirmem que temos razão, e isso não é dialogar para aprender, para conhecer o novo. Mais interessante seria pegar ‘emprestadas’ ideias que fogem da nossa lógica, tentar entender o porque pensamos tão diversamente, e só então poderemos dialogar de verdade.

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Toscana, Itália, região onde Veronica Botelho reside com o marido ítalo-brasileiro e duas filhas; autora já morou em países distintos, como Espanha, Argentina e Costa do Marfim

Como a vida em tantas cidades e países diferentes influenciou em seu processo criativo?

O fato de ter vivido em tantos lugares me fez perceber que cada um tem o seu tempo, cada coisa o seu momento. Em cada lugar que eu vivi, eu parei em um determinado tempo, mas o lugar, as pessoas, a vida prosseguiu. É como se eu congelasse cada tempo, no seu devido momento. No Brasil eu parei na época que o forró era conhecido só no Nordeste, que o pessoal do Sul tirava onda com os nordestinos, mas tudo não passava de brincadeiras, onde eu tinha que esconder meu cabelo afro, onde Lula era a esperança do futuro, mas não se acreditava realmente que fosse possível elege-lo. Parei no tempo em que as classes sociais eram mais divididas, quando não se estudava filosofia e sociologia nas escolas. Depois de 20 anos fora, perdi muito ‘tempos’, e cada ano que fico sem ir, esse espaço aumenta. Na Inglaterra por exemplo, parei no tempo que ela ainda não era parte da União Europeia, que nas escolas de inglês para estrangeiros estavam cheias de alunos europeus. Voltei depois de 15 anos e era tudo diferente. Mas porque eu estava em outro tempo. Quem lá ficou acha normal e talvez nem lembre como era antes da entrada deles na União Europeia. Eu lembro que voltei comentando: – Quero ver até quando a Inglaterra vai aguentar permanecer na União Europeia, porque nem um país gosta de se sentir invadido e pouco compreendido.

Observamos muito as diferenças, não?

Além de situações sociais e experiências pessoais, viver diferentes tempos de tantas realidades, aumentou e aumenta a minha perspectiva sobre vários pontos de vista, sobre varias situações, mas principalmente ter vivido em tantos lugares tão diferentes, me ajudou a identificar que no fundo tem uma coisa muito forte da qual somos todos iguais: quando sentimos! Não adianta discutir sobre as diferenças, temos que nos unir através do que temos em comum, e a única coisa comum a todo ser humano, é o sentir. Quando sentimos juntos, aprendemos a respeitar as diferenças e a dialogar com a mente e coração abertos.

“Na minha época era diferente”. Aqui em Natal a frase virou mantra para muita gente. O que pensa disso?

Em todos os países onde morei, essa frase é um mantra. Diria que faz parte da condição do ser humano sempre achar que antes era melhor. Principalmente porque nesse processo a nossa memória tem um rolo primordial: ela é seletiva e se lembra do que quer, do momento que quer e como quer. Inclusive já foi demonstrado que existem as falsas memorias, que podem ser implantadas e/ou criadas pelo nosso próprio inconsciente, seja para aliviar a dor de uma lembrança traumática, seja para enaltecer uma experiência medíocre. Mas questões, como violência e transito caótico, são fatos bem visíveis. Eu que não acompanhei passo a passo essa mudança, cada vez que volto fico chocada.

adam-martinakis_the_remains_of_a_memory_1400E ainda teve o turismo estrangeiro de massa, cerca de dez anos atrás, para alterar a dinâmica em alguns bairros da cidade.

Acho que em Natal o boom do turismo acabou trazendo mais danos que benefícios, como acontece na maioria dos lugares. Vi muitas cidades se transformarem por causa do turismo massificado, e a Europa não é uma exceção. O turismo é sempre visto como um beneficio para a economia, mas sem controle é um dano. Na minha opinião, esse tipo de turismo que não incentiva a interação com o lugar, acaba danificando não só a imagem, mas principalmente o bem-estar dos moradores. Aqui em Florença por exemplo, as pessoas reconhecem a importância do turismo, mas os moradores não se esforçam por tratarem bem os turistas, já estão cansados da cidade invadida, e isso se sente principalmente no atendimento ao publico.

As crônicas de Meias Verdades apresentam novas abordagens de uma mesma situação. Fale-me sobre isso.

A ideia é transmitir vários pontos de vista de uma mesma situação. Estimular o processo de desenvolvimento da empatia, apresentando novas percepções. Defendo a teoria de que o “ser humano nasce puro e é a sociedade o corrompe”, como defendido por Jean-Jacques Rousseau. Acredito que conhecer o ponto de vista do outro é um primeiro passo para a aceitação, e que o passo principal e sentir o que o outro sente. Atualmente vários estudos têm demonstrado como a empatia nos ajuda a relacionar e entrar em sintonia com o outro. No momento que sentimos juntos, nos aproximamos e nos respeitamos mais. Por exemplo: Por que nos impressiona mais um atentado em Paris, onde morreram 130 pessoas, do que todos os ataques sofridos na Síria, que até agora causaram mais de 270mil mortos? Porque nos sentimos mais próximos aos franceses, nos sentimos mais parecidos, além de vermos como uma coisa que também poderia acontecer a nós. A Síria é algo visto como muito longe, uma cultura completamente diferente da nossa.

veronica-botelho-livroVocê estuda psicologia e antropologia cultural e já cursou medicina, direito e produção cultural. Como essas competências influenciaram Meias Verdades?

Sai do Brasil para estudar inglês, nunca pensei que acabaria não voltando. Comecei muitas universidades (medicina, direito, psicologia), mas a curiosidade pelas diferentes culturas e línguas, foi maior que a minha persistência com os estudos universitários. As minhas verdadeiras competências são as experiências que vivi, que me fizeram desenvolver empatia com cada pessoa e cultura que encontrei pelo caminho. Agora estou conectando tudo à parte acadêmica, me aperfeiçoando, estudando os grandes teóricos, as teorias, fazendo anotações e preparando a minha tese transcultural sobre Empatia. Já estou em contato com algumas universidades para me apresentar ao programa de doutorado em outubro do próximo ano. Escrever Meias Verdades para mim foi um divertimento, foi unir experiências à teorias. Aprendi muito durante o processo, e continuo escrevendo e aprendendo.

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