Vingança Prêt-à-Porter

Milena Azevedo
AudiovisualColunistas

Estilista Tom Ford veio das passarelas da moda para dirigir o ótimo thriller dramático Animais Noturnos, filme concorrente ao Oscar apenas na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Michael Shannon); merecia muito mais indicações.

A realidade desnudada é um monstro que só a ficção é capaz de nos fazer suportar.

Diretores de cinema egressos de outras mídias geralmente acertam a mão em seus primeiros longas, mas nem sempre são reconhecidos pelos membros da Academia.

O Oscar esnobou Ridley Scott durante anos, deu uma chance a Spike Jonze (por Quero Ser John Malkovich) e agraciou Michel Gondry apenas como melhor roteirista (por Brilho eterno de uma mente sem lembranças).

Um dos poucos a ser aceito logo de cara foi Sam Mendes (vindo do teatro), que concorreu e ganhou o Oscar de Melhor Diretor por seu debut em Beleza Americana.

A vítima mais recente de esnobismo, por parte da Academia, é Tom Ford.

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Estilista renomado e polêmico, Tom Ford estreou no cinema em 2009, na direção de Direito de Amar, ao adaptar o livro homônimo de Christopher Isherwood

A passarela cinematográfica de Tom Ford

Ford vem do mundo da moda, é estilista renomado e polêmico, que estreou em 2009 na direção de Direito de Amar, ao adaptar o livro homônimo de Christopher Isherwood, em roteiro dividido com David Scearce.

Em seu segundo longa, o thriller dramático Animais Noturnos, realizado em 2016, ele também adapta um romance, dessa vez Tony and Susan, de Austin Wright.

A sequência de abertura já traz em si a premissa do filme: a realidade desnudada é um monstro e a ficção é a única maneira de nos fazer suportar esse monstro.

O confronto entre a realidade e a ficção é meticulosamente bem trabalhado nas duas tramas minimalistas que compõem a película, em que o remorso (conflito interno) dos dois personagens principais é o elemento-chave da ação.

Susan (interpretada por Amy Adams) é uma bem-sucedida dona de galeria de arte, cuja vida exuberante perdeu o encanto ao ver que tinha tudo para ser uma mulher realizada e feliz, mas não o é, pois lhe falta sentimento/emoção (o marido e a filha estão cada vez mais distantes).

Vale salientar que Susan, apesar de trabalhar com arte, se negou a sentir e a criar, acreditando ser uma mulher cínica e pragmática (tal qual sua mãe), que prefere a realidade concreta. Por isso, tem problemas para dormir e, consequentemente, não sonha.

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Atriz Amy Adams interpreta Susan, uma bem-sucedida dona de galeria de arte, cuja vida exuberante perdeu o encanto

O sonho

Ao receber o boneco do primeiro romance de seu ex-marido, Edward (interpretado por Jake Gyllenhall), o qual levou anos para ser escrito, ela corta o dedo logo ao tentar abrir o embrulho (elemento indiciático de que o conteúdo irá machucá-la).

Ela estranha aquele pedido inesperado para ler o livro a ela dedicado (o título do livro, inclusive, se refere ao apelido que ela recebera de Edward, uma menção a sua insônia), e se encontrar com ele depois de 19 anos sem se falarem.

Antes de começar a ler o livro, Susan vai a um jantar e seu amigo Carlos lhe aconselha a desfrutar do absurdo do mundo das artes, pois ele é bem menos doloroso do que o mundo real.

Com isso, o segundo e o terceiro atos trazem cenas intercaladas entre realidade e ficção (com uma pegada bem lynchiana).

No entanto, a ficção de Edward é vista sob o olhar de Susan, acentuando o remorso de ambos por fatos ocorridos no passado (cenas de flashback expositivo aparecem, intercalando a realidade entre passado e presente, fazendo o expectador assimilar as metáforas da trama do livro).

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Sentimento de culpa e egoísmo atormentam Susan após termino da relação conjugal co Edward, que passa a se sentir um inútil

A culpa

No livro, o personagem Tony é visto por Susan como se fosse o próprio Edward.

Por ser fraco e passivo, Tony não consegue salvar sua esposa e filha de um estranho trio de valentões. Somente após perdê-las, toma coragem para se vingar.

Na jornada por vingança, conhece o policial Bobby Andes (interpretado por Michael Shannon), cuja sede por justiça o faz agir fora-da-lei.

A ficção revela que Susan nunca deixou de se culpar pelo rompimento com Edward, fazendo com que ele se sentisse um homem imprestável.

Todos os atos egoístas de Susan reverberaram em Edward (na realidade). Seu remorso é externado no livro, quando Tony, aos berros, diz a Andes que deveria ter feito algo antes, como se sua profissão de criador/escritor o obrigasse a prever como as coisas iriam terminar.

Assim, tanto na ficção quanto na realidade, ele precisa se redimir para si mesmo e mostrar que aprendeu a lição: deixar de fugir e encarar sua escolha (justamente o que ele acusou Susan de não fazer na vida real, ao matar seu amor e a chance de constituírem uma família).

Milena_Animais Noturnos_2Resumo da ópera

Ao enviar o boneco do livro a Susan, e despertar sua curiosidade em lê-lo, Edward a traz para o seu “mundo”: o da imaginação, da criatividade, do sonho. À medida que vai lendo, ela passa a confrontar realidade e imaginação, encontrando, por fim, na segunda a emoção e o sentimento que lhe estavam em falta (esperança de ser perdoada e de se sentir amada por Edward – tudo isso materializado naquele vestido verde, com decote provocante), trazendo-lhe uma nova centelha de vida, pois a realidade lhe mostrava não valer a pena continuar se preocupando com seu atual marido (conflito pessoal), o qual vinha agindo de forma tão mesquinha quanto ela agiu no passado com Edward.

Entretanto, para Edward, a realidade que Susan o forçou a encarar, no passado, apagou a centelha de vida do sonho dele, tornando-o cínico e pragmático, no presente.

Ele escreve o romance e o dedica ironicamente à Susan, intuindo ser o trabalho que irá lhe abrir as portas do sucesso e da vida extravagante por ela antes almejada, apenas para iludi-la e feri-la, obtendo sua tão esperada vingança, tal qual o personagem Tony afirma na ficção: “ninguém escapa daquilo que fez”.

Ah, mais todo bom filme com trama minimalista tem final aberto e, como ensina o mestre Robert McKee, dá ao expectador duas interpretações possíveis de finais.

Milena_Animais Noturnos_elenco diretor

Da esq. para dir: Ellie Bamber, Tom Ford, Amy Adams, Aaron Taylor Johnson, Robert Salerno e Jake Gyllenhaal

Animais Noturnos merecia mais indicações

Caso se opte pelas consequências do final mostrado na ficção de Edward, a resolução da realidade ganha outros ares, tão bom e trágico quanto o supracitado: ao se dar conta de que o objeto de sua vingança (Susan) seria também o responsável pelo seu sucesso na carreira literária, a vingança (e a sua vida) perdem o propósito.

Com roteiro redondo, interpretações acima da média, edição primorosa (as transições entre as sequências de realidade e ficção/presente e passado são bem sacadas) e uma direção segura, Animais Noturnos merecia concorrer a bem mais categorias do que apenas Ator Coadjuvante para Michael Shannon (cuja atuação está tão impecável quanto a de Amy Adams).

Resta o consolo de saber que a Academia vez por outra faz um mea culpa e reconhece os talentos outrora esnobados.

Spike Jonze que o diga, pois pra quem fazia documentários sobre skate e foi criador e produtor da série Jackass da MTV, mesmo tendo o ótimo Adaptação colocado pra escanteio (ele conseguiu extrair de Nicolas Cage uma atuação de verdade!), concorrer a Melhor Filme e ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original por Ela foi uma conquista e tanto.

Destá que Tom Ford terá sua vingança prêt-à-porter.

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Milena Azevedo

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